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Agronegócio

Agrishow 2026: ausência de gigantes expõe fragilidade do agro

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Yellow combine harvester parked in a grassy field.
Foto: Roger Starnes Sr / Pexels

A Agrishow 2026 chega com cadeiras vazias entre os expositores tradicionais. Grandes fabricantes de máquinas e insumos reduziram presença ou cancelaram participação, um sinal que transcende a lógica comercial de uma feira e aponta para pressões estruturais no setor. Com o Ibovespa em 190.597 pontos e o dólar cotado a R$ 5,01, o agronegócio brasileiro enfrenta um dilema que os números do mercado financeiro ainda não precificaram completamente.

A ausência não é acidental. Ela reflete a combinação de três fatores que estrangulam margens: câmbio desfavorável para importações de insumos, SELIC em 14,75% a.a. comprimindo crédito rural, e preços internacionais de commodities sob pressão. Quando uma multinacional decide economizar em presença de feira, é porque o cálculo de retorno virou negativo.

O que os dados revelam

O dólar a R$ 5,01 é particularmente corrosivo para o agro. Fertilizantes, peças de máquinas e tecnologia agrícola são importados. A moeda forte encarece insumos sem que o produtor consiga repassar custos — os preços de soja e milho são cotados em dólar no mercado internacional, mas a receita em reais encolhe com a desvalorização. A última vez que enfrentamos pressão cambial desta magnitude foi em 2020, quando o setor também recuou em investimentos.

A SELIC a 14,75% amplifica o problema. Crédito rural fica caro. Um produtor que precisava financiar safra a 8-9% há dois anos agora enfrenta taxas que consomem margem operacional. O Ibovespa reflete alguma resiliência — está próximo dos 190 mil pontos — mas isso mascara a realidade setorial: ações de empresas de agronegócio estão entre as piores performers do índice nos últimos trimestres.

Impacto por classe de ativo

Para renda variável, o recado é claro: fabricantes de máquinas agrícolas e distribuidoras de insumos enfrentam contração de demanda. Empresas com exposição a crédito rural também sofrem — a inadimplência sobe quando juros estão altos. Papéis de empresas com receita em dólar (como exportadores de commodities) ganham com a moeda forte, mas isso não compensa a queda de volume.

Renda fixa: a curva de juros precifica risco crescente no agro. Títulos de empresas do setor negociam com spreads mais altos. Fundos de crédito privado com exposição agrícola já mostram sinais de stress.

Câmbio: o dólar a R$ 5,01 tende a se manter elevado enquanto o diferencial de juros Brasil-EUA persistir. A SELIC em 14,75% deveria atrair capital externo, mas a volatilidade global (VIX em 19,3) mantém investidores cautelosos.

O que monitorar

Três variáveis definem os próximos passos do agro: (1) a decisão do Copom sobre SELIC em dezembro — qualquer sinalização de corte mais agressivo aliviaria crédito; (2) cotação do dólar nas próximas semanas — se romper R$ 5,10, pressão cambial fica insustentável; (3) preços de commodities — se soja cair abaixo de US$ 10 por bushel, margens desaparecem mesmo com câmbio favorável.

A Agrishow 2026 não é apenas uma feira. É um termômetro. E o termômetro marca febre.

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