O agronegócio brasileiro fechou 2025 com expansão de 12,2%, alcançando R$ 3,2 trilhões de valor adicionado. O número é robusto e reflete a resiliência do setor diante de pressões cambiais e de custo. Mas há uma armadilha nessa narrativa: enquanto a produção cresce em volume, o produtor enfrenta erosão de margens causada pelo dólar a R$ 4,97 e pela Selic travada em 14,75% ao ano.
O crescimento do PIB agro é real, mas incompleto. Reflete ganhos de produtividade e expansão de área, não necessariamente melhoria na renda líquida do produtor. Com o real depreciado, insumos importados ficam mais caros. Simultaneamente, a Selic elevada encarece o crédito rural e reduz a capacidade de investimento em modernização. O Ibovespa em 189.579 pontos reflete otimismo com commodities, mas esse otimismo não se traduz uniformemente na ponta da produção.
O que os dados revelam
A expansão de 12,2% do PIB agro contrasta com a realidade do caixa do produtor. O dólar a R$ 4,97 significa que fertilizantes, defensivos e equipamentos importados custam 15% a 20% mais caro que há dois anos. Simultaneamente, a Selic em 14,75% implica taxa de juros real positiva de cerca de 8% ao ano—um custo de capital que desestimula investimento em longo prazo.
O setor cresceu porque choveu bem em 2024 e 2025, porque produtividade aumentou, e porque preços internacionais de soja e milho se mantiveram resilientes apesar da volatilidade global (VIX em 18,7 indica moderação no medo, mas não eliminação). Mas esse crescimento é vulnerável: depende de clima favorável e de preços CBOT que não desabem.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Ações de empresas de insumos agrícolas (fertilizantes, defensivos) ganham com o dólar alto, mas perdem com a Selic elevada reduzindo demanda por crédito. Tradings de commodities se beneficiam da volatilidade. Empresas de máquinas agrícolas sofrem com juros altos desestimulando compras.
Renda fixa: A curva de juros permanece pressionada. Títulos pré-fixados em 14,75% atraem capital que poderia ir para financiamento agrícola. Debêntures de empresas do agro enfrentam spreads elevados.
Câmbio: O dólar a R$ 4,97 reflete expectativa de Selic persistentemente elevada. Qualquer sinal de queda de juros pressiona o real para baixo, beneficiando exportadores de commodities, mas encarecendo importações de insumos.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Decisão do Copom sobre a Selic (expectativa de manutenção em 14,75%). Qualquer sinalização de corte de juros em março movimenta o dólar e impacta diretamente o custo de insumos.
Até março: Preços CBOT de soja e milho. Uma queda de 5% nos preços internacionais, combinada com dólar em R$ 5,00, comprime margens do produtor em até 15%.
Monitorar também: Inflação de insumos agrícolas (fertilizantes, combustível). Se a inflação de custos superar a inflação de preços de commodities, o produtor perde poder de compra real.
