O agronegócio brasileiro enfrenta um dilema estrutural: precisa financiar a próxima safra em um ambiente onde a taxa Selic permanece em 14,5% ao ano, tornando o crédito rural progressivamente mais caro. A questão não é nova, mas ganha urgência agora, quando produtores e bancos negociam os termos do novo Plano Safra. O endividamento do setor já atinge patamares críticos, e a margem para manobra política se estreita.
O custo do dinheiro no Brasil segue entre os mais altos do mundo. Enquanto isso, o preço das commodities — especialmente soja e milho — oscila sob pressão de safras globais abundantes e demanda chinesa fraca. Produtores que contraíram dívidas em 2023 e 2024 agora enfrentam a realidade: renovar linhas de crédito significa aceitar juros que comprometem a rentabilidade. Não é catástrofe iminente, mas é aperto real.
O que os dados revelam
O movimento de juros altos reflete a prioridade do Banco Central em controlar a inflação. A Selic em 14,5% não é acidental — é resposta a pressões cambiais e expectativas de inflação ainda elevadas. Para o agronegócio, isso se traduz em custo de financiamento que varia entre 8% e 12% ao ano, dependendo da linha de crédito e do perfil do produtor.
Produtores de menor porte sofrem mais. Grandes operações conseguem acessar crédito externo ou captar via mercado de capitais. Pequenos e médios produtores dependem do Plano Safra e de linhas subsidiadas — exatamente onde o aperto é maior. A taxa média de juros no crédito rural subiu 2,3 pontos percentuais nos últimos 18 meses, segundo dados do Banco Central.
O endividamento acumulado do setor agrícola ultrapassou R$ 180 bilhões em 2024. Desse total, aproximadamente 35% vence nos próximos 12 meses. Renovar essa dívida com juros 2-3 pontos acima dos patamares de 2022 reduz a margem operacional em 15% a 20% para culturas como soja e milho, dependendo do preço da commodity.
Impacto por classe de ativo
No mercado de renda variável, as ações de empresas ligadas ao agronegócio — fertilizantes, máquinas agrícolas, trading de grãos — já precificam esse cenário. As ações de fabricantes de tratores caíram 8% nos últimos três meses. Empresas de crédito rural, por sua vez, veem margem de juros expandir, o que sustenta lucros no curto prazo.
Em renda fixa, títulos de empresas agrícolas com vencimento em 2025 e 2026 operam com spreads elevados — sinal de que o mercado precifica risco de refinanciamento. Bancos que concentram carteira em crédito rural já ajustam provisões para possíveis inadimplências.
O câmbio também entra na equação. Um dólar mais forte (USD/BRL em 5,03) encarece insumos importados — fertilizantes, defensivos, peças de máquinas — pressionando ainda mais a rentabilidade de quem planta.
O que monitorar
Três variáveis definem o próximo movimento: (1) a decisão do Copom na próxima reunião — qualquer sinalização de corte de juros muda o jogo para o agronegócio; (2) o preço da soja no mercado futuro de Chicago — queda adicional força renegociações de dívida; (3) os termos do novo Plano Safra — se o governo mantiver subsídios nas taxas ou permitir que juros de mercado predominem.
Até a próxima decisão de política monetária, produtores que conseguem antecipar colheitas ou fixar preços via contratos futuros ganham tempo. Os demais seguem pressionados.
