A aprovação do governo Lula permanece em 40%, mas o Ibovespa fecha em 197.323 pontos sem sinais de pânico. Essa desconexão revela algo mais importante que a própria pesquisa: o mercado brasileiro já precificou a instabilidade política como constante estrutural. O real a R$ 5,02 e a Selic em 14,75% a.a. funcionam como amortecedores que compensam o ruído político.
O que parecia ser uma ameaça — aprovação baixa — virou apenas ruído de fundo. Investidores estrangeiros continuam comprando renda fixa brasileira porque os juros reais (Selic menos inflação esperada) seguem atraentes globalmente. O VIX em 19,5 (moderado) mostra que o medo global não está elevado, o que reduz prêmio de risco sobre ativos emergentes.
O que os dados revelam
A pesquisa de aprovação em 40% não é nova — oscila nesse patamar há meses. O que mudou foi a resposta do mercado: antes havia volatilidade; agora há indiferença. Isso ocorre porque três variáveis se alinham favoravelmente: (1) Selic em patamar que justifica alocação em renda fixa brasileira; (2) dólar forte globalmente (não é problema específico do Brasil); (3) petróleo em US$ 114 sustentando receitas de exportação.
Quando a aprovação presidencial cai em economias desenvolvidas, o mercado reage. Aqui, não. A razão: Brasil já opera com desconto político embutido há anos. O prêmio de risco soberano brasileiro reflete isso. Adicionar mais 5 pontos percentuais de desaprovação não muda a equação para quem compra título brasileiro a 14,75%.
A última vez que aprovação baixa derrubou o Ibovespa foi em 2020, quando havia incerteza sobre capacidade de pagamento. Hoje, o governo não enfrenta risco de calote. Enfrenta desgaste político — coisa diferente.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Setores defensivos (utilities, consumo essencial) devem continuar preferidos. Bancos se beneficiam da Selic elevada. Ações cíclicas sofrem mais com desaprovação porque sinaliza menor consumo futuro, mas o efeito é lento.
Renda fixa: A curva de juros brasileira precifica estabilidade da Selic por mais tempo. Títulos pré-fixados a 14,75% continuam atraentes para estrangeiros. Desaprovação política não muda a função de reação do Banco Central — que segue focado em inflação.
Câmbio: O dólar a R$ 5,02 reflete mais a força do dólar global (Fed mantendo juros altos) que problemas específicos do Brasil. Aprovação presidencial baixa tende a depreciar moeda, mas está sendo contrabalanceada por fluxos de renda fixa.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Abertura de Wall Street (em 1h) vai ditar o tom para emergentes. Se S&P 500 cair, o Ibovespa acompanha — independente de aprovação de Lula.
Até o Copom (próxima reunião): Qualquer sinal de que Selic pode cair abruptamente muda o jogo. Renda fixa brasileira perde atratividade se juros caem. Aí sim, desaprovação política vira problema.
Variável crítica: Inflação brasileira. Se subir, Selic sobe mais, e o carry trade fica ainda mais atraente. Aprovação presidencial vira irrelevante.
