O Banco Central voltou a atuar com força no mercado de câmbio nesta sexta-feira, marcando a segunda intervenção de magnitude relevante na semana. O dólar fechou em R$ 5,0739, refletindo tanto a pressão contínua sobre a moeda quanto o efeito — ainda que limitado — das operações de swap cambial e compra de dólares à vista executadas pela autoridade monetária.
A movimentação ocorre num contexto em que a Selic permanece elevada em 14,25% ao ano, mas ainda insuficiente para conter a volatilidade cambial. O real acumula desempenho fraco contra o dólar em 2025, pressionado por fluxo externo de capital e expectativas sobre o cenário fiscal brasileiro. A intervenção do BC, portanto, não é defesa de preço específico, mas contenção de movimento mais abrupto.
O que os dados revelam
As operações do BC sinalizam preocupação com a velocidade da depreciação, não necessariamente com o nível absoluto. Quando o Banco Central intervém duas vezes em uma semana — e não apenas com swap (que é passivo de curto prazo), mas também com compra de dólares à vista — a mensagem é que deseja evitar picos que alimentem inflação de importados ou choque cambial nos balanços corporativos.
O Ibovespa fechou em 175.994,97 pontos, operando com cautela típica de Friday: ganhos contidos enquanto os traders observam o comportamento do dólar. Setores exportadores como Vale e Petrobras oscilam conforme o câmbio, criando um efeito de ancoragem. A cada real de depreciação, a margem de ganho em dólar dos exportadores diminui, pressionando avaliações.
A persistência da pressão cambial, apesar das intervenções, sugere que o problema não é tático (falta de oferta de dólares) mas estrutural: deficit de conta corrente, incerteza fiscal e diferencial de juros menor que em 2023-2024 (quando a Selic em 13,75% atraía carry trade massivo). Hoje, com Selic em 14,25%, o atrativo permanece, mas fluxos reais predominam sobre arbitragem.
Impacto por classe de ativo
Renda Variável: A alta do dólar beneficia exportadores (Vale, Natura, JBS) mas pressiona empresas com passivo em dólar (bancos, varejo). O setor financeiro, que compõe grande parcela do Ibovespa, absorve a volatilidade cambial como custo de funding externo. Espera-se que a cada dólar a R$ 5,10, pequenas capitalizações sofram mais.
Renda Fixa: A pressão cambial cria dilema para o Copom nas próximas reuniões. Se o dólar continuar em tendência de alta, a inflação importada pode forçar o BC a manter ou até elevar a Selic, mesmo com crescimento modesto. A curva de juros já precifica essa possibilidade: prêmios de risco em prazos longos refletem receio de inflação residual.
Câmbio: O real testa patamares não vistos desde fins de 2024. Cada tentativa de apreciação (via intervenção) encontra resistência em fluxo externo. O próximo suporte relevante está em R$ 5,15.
O que monitorar
-
Frequência de intervenções: Se o BC precisar intervir mais de duas vezes por semana, sinaliza descontrole. Até agora, está contido.
-
Dados de inflação de importados: O IPCA de alimentos e combustíveis divulgado nas próximas semanas mostrará o pass-through cambial. Aceleração força o BC a apertar ainda mais.
-
Fluxo externo na B3: Ações estrangeiras e bonds soberanos monitoram se o real depreciado já atrai compradores internacionais de novo.
O cenário hoje exige vigilância. Banco Central intervindo com frequência, dólar em alta, Selic elevada mas aparentemente perto do pico — é combinação que precisa de catalisador nos próximos 10-15 dias (dado de inflação, decisão fiscal ou fala de autoridade monetária) para resolver a direção.
