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Agronegócio

Cacau em risco: oferta global ameaça preços e rentabilidade

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Top view of modern industrial machinery working with black natural coal in daylight
Foto: K / Pexels

O mercado de cacau enfrenta pressão estrutural. A perspectiva de aumento na oferta global nos próximos meses ameaça derrubar cotações que ainda operam em patamares elevados. Para produtores brasileiros, a questão é simples: quanto tempo leva até essa pressão chegar aos preços domésticos?

Os sinais vêm de múltiplas regiões produtoras. A Côte d'Ivoire e Gana, responsáveis por 60% da produção mundial, reportam colheitas maiores que o esperado. Simultaneamente, a recuperação da produção em outras regiões — Indonésia, Camarões e até Brasil — adiciona volume ao mercado. Essa combinação cria um cenário de oferta crescente em um momento em que a demanda global não acelera na mesma velocidade.

O dólar a R$ 5,01 complica o quadro para quem vende em moeda local. Mesmo que as cotações internacionais caiam, a desvalorização do real ofereceria alguma proteção. Mas esse efeito é limitado: se o cacau cair 15% em dólares e o real desvalorizar 5%, o produtor ainda perde 10% em reais. A matemática é desfavorável.

O que os dados revelam

A oferta excessiva é o inimigo número um de qualquer commodity. Quando a produção supera o consumo, os estoques crescem e os preços cedem. No cacau, esse ciclo já começou. As estimativas de safra para 2024/2025 apontam para um superávit de 100 a 150 mil toneladas — volume significativo em um mercado que consome cerca de 5 milhões de toneladas anuais.

Historicamente, períodos de oferta abundante no cacau duram 18 a 24 meses. A última vez que isso ocorreu, entre 2017 e 2018, os preços caíram 40% em um ano. Não é cenário apocalíptico, mas é realista. O mercado já precifica parte dessa pressão, mas nem toda.

A demanda por chocolate e derivados permanece resiliente nos mercados desenvolvidos, mas cresce lentamente. Não há catalisador de consumo que justifique absorver esse volume extra de forma rápida. Isso significa que a oferta vai ganhar a queda de braço nos próximos trimestres.

Impacto por classe de ativo

Para produtores, a recomendação é clara: não espere. Quem tem cacau em armazém e consegue vender nos próximos 30 dias deve considerar seriamente a operação. Os preços ainda estão em patamares que permitem margens razoáveis. Esperar pela "melhora" é uma aposta contra os fundamentos.

Os preços futuros do cacau já começam a refletir essa pressão nas posições mais distantes. A curva de futuros está em contango — contratos mais próximos valem mais que os distantes — o que sinaliza que o mercado espera queda. Essa é a linguagem do mercado: ele já está precificando o problema.

No Brasil, produtores na Bahia e Espírito Santo devem acompanhar de perto as cotações internacionais. A transmissão de preços do mercado global para o preço doméstico ocorre com defasagem de 2 a 4 semanas. Quem vende hoje ainda colhe os benefícios dos preços atuais. Quem vender em março pode estar 15% a 20% mais baixo.

O que monitorar

Acompanhe três variáveis nos próximos 30 dias:

  1. Relatórios de safra da Côte d'Ivoire e Gana — qualquer revisão para cima confirma o cenário de oferta excessiva.

  2. Preços dos contratos futuros de cacau em Nova York (ICE) — se caírem abaixo de US$ 2.500 por tonelada, o sinal de venda fica ainda mais urgente.

  3. Dólar contra o real — uma apreciação do dólar ofereceria alguma amortização, mas não é garantida. Monitorar USD/BRL acima de R$ 5,10 reduz ainda mais a margem do produtor.

O tempo está contra quem espera. A oferta global de cacau está crescendo, e os preços vão seguir essa lógica. Produtores que adiarem decisões de venda correm risco real de perder 15% a 25% de receita nos próximos trimestres.

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