A Conab projetou a safra de café de 2026 em 66,7 milhões de sacas, sinalizando recuperação após os impactos climáticos dos últimos ciclos. O número representa movimento de normalização na produção brasileira, que responde por um terço do café global. Essa trajetória importa porque define fluxos de caixa para o agronegócio nos próximos meses e influencia a dinâmica de preços internacionais — hoje com o petróleo WTI em US$ 112,25, refletindo pressões de oferta global.
A estimativa da Conab ancora-se em recuperação das lavouras após geadas que afetaram ciclos anteriores. O Brasil colhe café em padrão bienal: anos de alta produção alternam com anos de queda natural. A projeção de 66,7 milhões de sacas situa-se em patamar intermediário, nem nos picos de 70+ milhões nem nos vales de 50 milhões. Isso sugere estabilização, não boom — o que é relevante porque o mercado precifica volatilidade quando há incerteza climática.
O que os dados revelam
A recuperação projetada reflete dois fatores. Primeiro, as condições climáticas de 2024-2025 foram menos severas que em ciclos anteriores, permitindo que as plantas se regenerem. Segundo, investimentos em replantio e manejo acelerado nos últimos dois anos começam a render produção incremental. Comparativamente, a safra 2024 foi estimada em torno de 61 milhões de sacas — a projeção de 2026 representa crescimento de 9,4%, movimento consistente com o padrão de recuperação bienal.
O dólar a R$ 5,03 amplifica o atrativo da exportação brasileira. Cada saca de café exportada rende mais reais quando a moeda americana está forte, o que incentiva produtores a antecipar colheitas e negociações. Esse efeito cambial é tão relevante quanto a produção física: com o real depreciado, o café brasileiro fica mais competitivo globalmente, pressionando preços internacionais para baixo — dinâmica que já está precificada nos mercados futuros de Nova York.
Impacto por classe de ativo
Para renda variável, a notícia beneficia ações de empresas de insumos agrícolas, logística e processamento de café. Produtores integrados — aqueles que colhem e processam — ganham com volume maior, mas perdem margem se preços caírem por excesso de oferta. O Ibovespa a 176.631 pontos reflete essa dinâmica: setores cíclicos como agronegócio oscilam conforme perspectivas de demanda global e câmbio.
Para renda fixa, a recuperação da safra reduz pressão inflacionária sobre alimentos, favorecendo a Selic em 14,50% a.a. Um ciclo de normalização agrícola contribui para desinflação, argumento que o Banco Central monitora nas próximas decisões. Commodities mais estáveis significam menos volatilidade de preços ao consumidor.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos passos. Primeira: condições climáticas em 2025 — geadas fora de época podem derrubar a projeção de 2026 em semanas. Segunda: preço do café nos mercados futuros de Nova York — se cair abaixo de US$ 2,00 por libra, produtores podem atrasar colheitas ou reduzir investimentos em manejo. Terceira: taxa de câmbio — cada movimento de 5 centavos no dólar reposiciona a competitividade das exportações brasileiras.
Nas próximas semanas, a Conab pode revisar a estimativa conforme dados de floração e frutificação cheguem das regiões produtoras. Esse ciclo de revisões é normal e esperado — o mercado já precifica essa volatilidade.