A colheita de café arábica segue em ritmo lento nesta fase de abril, mas sinais técnicos e climáticos indicam aceleração significativa a partir de maio. O movimento reflete padrão sazonal típico, mas com nuances que importam para quem opera commodities e acompanha o setor.
O atraso na colheita atual contrasta com a expectativa de produção total para 2024. Enquanto as chuvas de verão ainda afetam a logística nas principais regiões produtoras — Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo — a janela de tempo para colheita mecanizada se abre justamente quando as temperaturas começam a cair e a umidade do solo normaliza. Isso significa que o pico de colheita, historicamente concentrado entre maio e julho, deve ganhar velocidade nas próximas semanas.
O que os dados revelam
A desaceleração atual não é anomalia, mas reflexo direto das condições climáticas de verão. Chuvas acima da média em março e abril dificultaram o acesso aos cafezais e a operação de máquinas colheitadeiras — equipamentos que exigem solo firme para não danificar as plantas. Produtor que tenta colher em lama perde eficiência e aumenta custos.
O cenário muda em maio. As projeções meteorológicas apontam redução de precipitações e queda gradual de temperaturas, criando condições ideais para mecanização em larga escala. Historicamente, essa janela de 90 dias (maio a julho) concentra 70% a 75% da colheita anual de arábica no Brasil.
A pressão sobre preços internacionais também muda o incentivo. Com o dólar em 4,99 reais e volatilidade global moderada (VIX em 18), produtores brasileiros têm menos urgência em vender antecipadamente. A receita em reais fica mais atrativa quando a moeda americana se mantém firme, o que reduz a pressa em colher e comercializar antes do pico de oferta.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas de insumos agrícolas e logística (armazenagem, transporte) devem se beneficiar do pico de colheita em maio. Fabricantes de peças para colheitadeiras também ganham com a intensificação de operações. O Ibovespa, em 186.683 pontos, reflete ainda cautela global, mas o setor agrícola permanece como hedge contra volatilidade cambial.
Câmbio e commodities: O atraso na colheita oferece suporte técnico aos preços internacionais de café arábica. Menor oferta imediata mantém prêmios elevados para café disponível. Com o real em 4,99, produtores colhem receita maior em moeda local — dinâmica que pode acelerar vendas quando a colheita ganhar ritmo.
Renda fixa: A Selic em 14,75% a.a. continua pressionando custos de financiamento agrícola. Produtores que precisam de capital de giro para colheita enfrentam juros elevados, o que pode acelerar a venda assim que o café sair do pé.
O que monitorar
Próximos 15 dias: Boletins meteorológicos das regiões produtoras. Uma volta de chuvas intensas em maio adiaria novamente o pico de colheita e manteria pressão sobre preços.
Até final de maio: Volume de café colhido e comercializado. Dados de exportação e estoques em portos indicarão se a aceleração esperada se concretiza ou se há novos gargalos.
Variável cambial: Movimento do dólar. Queda do real abaixo de 4,90 aumentaria a pressa de produtores em vender; alta acima de 5,05 reduziria urgência e poderia estender o ciclo de colheita.
