A projeção de 66,7 milhões de sacas de café para a colheita de 2026 marca uma recuperação significativa após anos de volatilidade climática e produtiva. O número representa um aumento substancial frente aos ciclos anteriores impactados por geadas e secas, sinalizando que as condições de cultivo tendem a normalizar nos próximos meses. Para o produtor, essa perspectiva redefine o planejamento de investimento e comercialização — mas com ressalvas importantes sobre a realização efetiva dessa meta.
O movimento reflete dois fatores convergentes: a renovação de lavouras em regiões tradicionais como Minas Gerais e São Paulo, e a estabilização das condições hídricas após ciclos críticos. A produtividade esperada de 48 sacas por hectare (estimativa média para 2026) situa-se acima da média histórica de 45 sacas/ha, sugerindo que investimentos em manejo e variedades mais resilientes começam a surtir efeito prático nas fazendas.
O que os números revelam
Os 66,7 milhões de sacas projetados representam um crescimento de aproximadamente 12% frente à safra 2024/2025, que fechou em torno de 59,5 milhões de sacas. Esse incremento não é marginal — em volume, significa 7,2 milhões de sacas adicionais entrando no mercado global, o que pressiona preços internacionais e redefine margens para exportadores.
O dólar em 5,04 reais amplifica o efeito dessa maior oferta. Produtor que vende em dólar ganha com a cotação elevada, mas a projeção de colheita maior tende a desestimular preços internacionais do café arábica e robusta. A dinâmica é clara: maior volume brasileiro + câmbio forte = receita bruta potencialmente estável, mas margem por saca comprimida.
Historicamente, safras acima de 65 milhões de sacas ocorreram em 2019 (69,3 mi) e 2017 (61,2 mi). Em 2019, o preço do café arábica caiu 15% no ano seguinte. O paralelo não é perfeito, mas ilustra o risco de saturação de oferta que acompanha recuperações produtivas.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas de processamento e exportação (como JBS Café, Cooxupé) ganham com maior volume, mas margens caem se preços internacionais recuarem. Ações de insumos agrícolas (fertilizantes, defensivos) tendem a se beneficiar do aumento de investimento em lavouras.
Câmbio: A maior oferta de café para exportação reforça fluxos de dólares entrando no Brasil, criando pressão de apreciação do real. Produtor que já tem dívida em dólar vê a conta ficar mais pesada; quem vende em dólar se beneficia.
Renda fixa: Bancos que financiam safra (custeio e investimento) ampliam carteira de crédito agrícola. A taxa Selic em 14,50% a.a. mantém o custo de financiamento elevado, reduzindo o apetite por investimento em novas lavouras apesar da perspectiva positiva de produção.
O que monitorar
Três variáveis definem se a projeção de 66,7 milhões se realiza:
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Condições climáticas até junho de 2026 — geadas tardias em setembro/outubro de 2025 ou secas prolongadas em dezembro-janeiro podem reduzir a safra em até 10%. O risco climático permanece o principal wildcard.
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Preço do café arábica nos próximos meses — se cair abaixo de US$ 180 por saca, produtores podem reduzir investimento em tratos culturais, impactando produtividade final. Monitorar cotações no CBOT é essencial.
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Decisões de replantio — a viabilidade econômica de renovar lavouras antigas depende de preços sustentáveis. A próxima decisão do Copom sobre a Selic também influencia custo de capital para investimento em café.
A colheita de 2026 é promissora, mas condicional. Produtor que já plantou ganha com a perspectiva; quem ainda está decidindo deve avaliar se a margem esperada justifica o risco climático e de preço dos próximos 12 meses.
