A combinação de demanda externa enfraquecida e stress hídrico nas principais regiões produtoras brasileiras coloca o café em trajetória de baixa. O movimento reflete dois choques simultâneos que pressionam margens do produtor: consumo global retraído e oferta doméstica ameaçada. Com o dólar em 5,12 reais, a desvalorização cambial oferece alguma proteção de preço, mas insuficiente para compensar o duplo aperto.
Os dados de consumo internacional mostram contração real. Importadores em mercados desenvolvidos reduziram compras, refletindo tanto cautela pós-pandêmica quanto substituição por bebidas alternativas. Simultaneamente, a falta de chuva nas regiões do Cerrado Mineiro e Vale do Paraíba compromete a floração e o desenvolvimento dos frutos para a próxima colheita. Produtores que apostaram em expansão de área nos últimos dois anos agora enfrentam risco de produtividade abaixo do esperado.
O que os dados revelam
A queda de demanda não é marginal. Relatórios de importadores apontam redução de 8% a 12% nos volumes contratados para os próximos trimestres. Esse movimento pressiona preços nas bolsas internacionais (ICE Futures em Nova York), que já refletem expectativa de oferta menor combinada com procura deprimida — cenário que historicamente leva a volatilidade alta e preços em tendência baixa.
A seca agrava o quadro. Regiões que respondem por 60% da produção brasileira registram precipitação 30% abaixo da média histórica. Sem chuva significativa nas próximas 4 semanas, a estimativa de colheita 2025/26 pode cair de 65 milhões de sacas para 58-60 milhões. Paradoxalmente, oferta menor em contexto de demanda fraca não sustenta preços — apenas reduz a queda.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas de processamento e exportação (como JBS, Natura e Keurig) sentem pressão dupla. Custos de matéria-prima caem, mas volume de negócios também recua. Produtores integrados verticalmente sofrem menos; pequenos e médios cafeicultores enfrentam margem comprimida.
Renda fixa: Cooperativas agrícolas e financeiras que captam recursos para custeio de safra veem demanda por crédito aumentar — produtor precisa financiar o período de seca. Taxas de juros agrícolas (hoje em torno de 8% a.a. acima da Selic de 14,25%) devem se manter firmes.
Câmbio: O dólar a 5,12 reais oferece proteção parcial. Receita em dólares de exportadores vale mais em reais, mas não compensa queda de volume. Produtor que não fixou preço em dólar enfrenta dupla perda: preço menor em dólar + volume menor.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Relatório de importações dos EUA (maior consumidor). Se confirmarem redução acima de 10%, pressão sobre preços se intensifica.
Até a próxima decisão do Copom: Movimento da Selic. Se houver corte de juros, crédito agrícola fica mais acessível, aliviando caixa do produtor no curto prazo.
Próximas 3-4 semanas: Previsão de chuva. Qualquer sinal de precipitação acima de 50mm nas regiões críticas reduz risco de queda de produtividade e oferece suporte técnico aos preços.
Produtor que não travou preço deve considerar operações de hedge nas próximas semanas. O risco de queda adicional é real, mas janela de oportunidade para fixar preço antes de colheita se fecha rapidamente.