Os preços do café desabam sob o peso de uma safra global recorde. A pressão é tanta que começa a reconfigurar dinâmicas cambiais e de renda variável no Brasil — justamente quando o dólar já opera em 4,92 e a Selic segue em 14,50% a.a.
A oferta abundante de arábica e robusta nos mercados internacionais criou um cenário que os produtores brasileiros não esperavam enfrentar com tanta intensidade. Enquanto isso, o Ibovespa mantém 187.892 pontos, aparentemente desacoplado da pressão sobre um de seus maiores geradores de divisas.
O que os dados revelam
A queda nos preços do café não é marginal. Estamos falando de uma compressão que reflete oferta estruturalmente maior — não apenas um ajuste sazonal. Vietnã, Indonésia e a própria Colômbia aumentaram produção simultaneamente, criando um excesso que o mercado ainda está precificando.
Essa dinâmica tem implicação direta no câmbio. Café é a segunda maior commodity de exportação brasileira. Quando seus preços caem 15-20%, a receita em dólares dos produtores cai proporcionalmente, reduzindo a demanda por conversão de moeda estrangeira. Com o dólar já em 4,92, essa pressão adicional sobre o fluxo de divisas é relevante — especialmente porque a Selic em 14,50% deveria estar atraindo capital estrangeiro, mas não está compensando a deterioração dos termos de troca.
O movimento também sinaliza que a safra brasileira 2024/2025, apesar de robusta, não será o diferencial que o mercado precificava. Há três meses, analistas apostavam que a boa colheita brasileira criaria escassez relativa. Não aconteceu. A oferta global absorveu a demanda.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: O setor de agronegócio sofre pressão direta. Empresas como JBS e Marfrig, que dependem de insumos agrícolas, ganham margem — mas produtores de café integrados (como Natura &Co, que tem exposição ao setor) veem fluxos de caixa comprimidos. O Ibovespa ainda não reprificou isso completamente, sugerindo que o mercado está esperando por dados de safra mais consolidados.
Renda fixa: A queda nos preços de commodities reduz pressões inflacionárias no curto prazo, o que teoricamente beneficiaria a curva de juros. Mas a Selic em 14,50% já está em patamar restritivo. O Banco Central pode ter menos espaço para cortes se o câmbio continuar se deteriorando — e a queda do café piora exatamente isso.
Câmbio: O dólar a 4,92 reflete essa dinâmica. A oferta de divisas do agronegócio está enfraquecida. Sem a contrapartida de fluxo de capital estrangeiro robusto (o que a Selic deveria garantir), o real fica vulnerável. A próxima parada é 5,00 se a pressão persistir.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Dados de colheita do Brasil e confirmação de safra global. Se Vietnã revisar para cima sua produção, a queda acelera.
Até a decisão do Copom (5 de fevereiro): O BC observará se a deterioração cambial força uma mudança de postura. Com café caindo, a inflação de alimentos pode desacelerar — abrindo espaço para cortes. Mas o dólar forte complica a equação.
Monitorar fluxo de divisas: Quanto os produtores estão convertendo neste patamar de preço. Se a conversão acelerar, pode haver alívio cambial. Se adiarem, o dólar segue pressionado.
