O café brasileiro enfrenta tripla pressão nesta quinta-feira: o dólar a R$ 4,90 reduz a competitividade das exportações, a safra avança mais rápido que o esperado e os preços internacionais cedem sob o peso de oferta crescente. A combinação não deixa margem para recuperação no curto prazo.
O cenário é clássico de commodity em transição de ciclo. Enquanto a Selic permanece em 14,50% a.a.—entre as maiores do mundo—o real não consegue se apreciar de forma consistente. Isso deveria favorecer exportadores, mas não é o que ocorre. A razão: o mercado precifica uma safra 2024/25 robusta, com produção estimada acima de 60 milhões de sacas. Quando a oferta cresce, nem mesmo câmbio favorável sustenta preços.
O que os dados revelam
A cotação do café arábica no CBOT recuou 3,2% nas últimas duas semanas, enquanto o dólar ganhou 1,8% contra o real. Para o produtor brasileiro, o efeito é multiplicador negativo: recebe menos dólares por saca e ainda enfrenta preços internacionais em queda. A margem operacional comprime.
O Ibovespa a 184.108 pontos reflete essa dinâmica. Empresas de agronegócio ligadas à exportação de café—como JBS, Marfrig e até mesmo distribuidoras de insumos—sofrem com a pressão cambial e a perspectiva de receitas menores. O VIX global em 17,1 (moderado) não oferece proteção: é um ambiente de risco controlado, onde o mercado escolhe seus vencedores, e commodities em oferta abundante não estão nessa lista.
O petróleo WTI a US$ 109,76 também pesa. Custos de frete e insumos energéticos permanecem elevados, reduzindo ainda mais a rentabilidade da safra.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Ações de cooperativas cafeeiras e exportadores sofrem pressão direta. O setor de insumos agrícolas também recua, antecipando menor demanda por defensivos e fertilizantes em uma safra que promete abundância.
Renda fixa: Títulos de empresas do agro com exposição cambial ficam mais atraentes em termos de spread, mas o risco de crédito aumenta se a pressão de preços persistir por mais de dois trimestres.
Câmbio: O dólar a R$ 4,90 é estruturalmente alto para o padrão dos últimos cinco anos. A Selic elevada não consegue atrair capital estrangeiro suficiente para apreciar o real enquanto commodities caem. Isso sugere que o carry trade perdeu força.
O que monitorar
Próximas 48 horas: A abertura do CBOT nesta quinta à noite é crítica. Se o café arábica romper o suporte de US$ 4,20 por libra-peso, a queda pode acelerar. Produtores que ainda não colheram enfrentarão decisão difícil: antecipar colheita ou esperar recuperação improvável.
Até a próxima reunião do Copom (19 de fevereiro): Qualquer sinal de que o BC mantenha a Selic acima de 14% reforça o dólar alto. Isso perpetua a pressão sobre exportadores.
Indicador crítico: Acompanhe a relação entre preço do café e custo de produção. Se cair abaixo de 1,3x, muitos produtores entram em zona de prejuízo operacional, forçando venda antecipada e deprimindo preços ainda mais.
