A projeção de safra recorde de café em 2026/27 chega ao mercado em momento crítico: o dólar cotado a R$ 5,0007 e a Selic em 14,75% a.a. criam uma armadilha para o produtor. Mais volume não significa mais renda se o câmbio apreciado reduz o preço em reais e os juros domésticos drenam capital de giro.
Safras & Mercado estima colheita superior aos 70 milhões de sacas que marcaram o recorde anterior. O otimismo climático é real: chuvas regulares no Centro-Oeste e Sul favorecem desenvolvimento das plantas. Mas a realidade financeira é outra. Com o real forte contra o dólar, o produtor recebe menos por saca exportada. Simultaneamente, a Selic elevada torna o financiamento de custeio e armazenagem mais caro.
O que os dados revelam
O câmbio a R$ 5,00 não é acidental. Reflete fluxo de capital externo atraído pela Selic de 14,75%, a mais alta do G20. Esse carry trade artificial pressiona o real para baixo em termos nominais, mas em termos reais penaliza o exportador agrícola. Quando a safra recorde chegar ao mercado em 2026/27, a dinâmica pode estar diferente — mas o produtor que planta hoje precisa precificar esse risco.
O Ibovespa a 196.818 pontos reflete otimismo com commodities, mas o índice não captura a volatilidade cambial que afeta o agro. A VIX global em 18,2 (moderada) oferece respiro, mas não elimina o risco de reversão abrupta se a inflação americana acelerar e o Fed manter juros altos por mais tempo.
A comparação é direta: em 2021/22, quando o dólar operava a R$ 4,50-4,70 e a Selic em 2-3%, a safra recorde anterior rendeu mais por saca em reais. Hoje, mesmo com volume maior, a margem bruta do produtor pode ser inferior.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas de insumos (fertilizantes, defensivos) ganham com volume de safra, mas margens caem. Cooperativas e traders sofrem pressão cambial. O setor de armazenagem se beneficia do volume, mas com receita comprimida por saca.
Renda fixa: A Selic de 14,75% torna títulos pós-fixados atraentes para produtores com caixa, mas financia menos investimento em produção. Debêntures agrícolas enfrentam demanda reduzida.
Câmbio: O dólar a R$ 5,00 é o principal risco. Se o Fed cortar juros antes do esperado, o real aprecia e a receita em dólares do produtor cai ainda mais em reais. Se mantiver juros altos, a Selic permanece elevada, comprimindo custos.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Decisão do Copom (se houver) sobre Selic. Qualquer sinalização de corte muda a dinâmica cambial e impacta a precificação da safra 2026/27.
Até junho de 2026: Evolução do câmbio USD/BRL. Se o real apreciar para R$ 4,70, a receita do produtor sobe 6% em reais. Se depreciar para R$ 5,30, cai 6%.
Monitorar: Relatórios de condições climáticas mensais (CONAB). Qualquer seca ou geada reduz a safra projetada e muda a dinâmica de preços internacionais, oferecendo oportunidade de hedge ao produtor.