A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) entrou em campo pedindo R$ 623 bilhões para o Plano Safra 2024/25 — um número que revela a pressão real sobre o setor. O timing não é casual: com a Selic em 14,5% ao ano e o dólar cotado a R$ 4,9274, o custo de financiamento para o produtor está em níveis que comprometem a viabilidade econômica de operações já apertadas.
O pedido da CNA não é apenas um número. É um grito de alerta sobre a incompatibilidade entre a política monetária brasileira e a realidade do agronegócio. Enquanto o Banco Central mantém juros elevados para conter inflação, o produtor rural — que precisa financiar insumos, máquinas e custeio — enfrenta taxas que devoram margem. O dólar alto piora o quadro: fertilizantes, defensivos e peças importadas ficam mais caros, ampliando a pressão sobre custos.
O que os dados revelam
A correlação entre Selic e demanda por crédito agrícola é direta. Em 2023, quando os juros começaram a subir, o Plano Safra recebeu R$ 364 bilhões — número que já era considerado insuficiente. O pedido de R$ 623 bilhões agora representa um aumento de 71% em relação àquele patamar. Isso não é inflação de demanda; é deflação de capacidade de pagamento.
O Ibovespa em 187.691 pontos reflete certa resiliência do mercado, mas o setor agrícola não acompanha essa narrativa. As ações de empresas ligadas ao agro — fertilizantes, máquinas, cooperativas — sofrem pressão porque o produtor está com fluxo de caixa comprimido. O dólar a R$ 4,93 amplifica esse efeito: cada ponto percentual de desvalorização do real adiciona 1% ao custo de insumos importados.
A Selic em 14,5% é o verdadeiro gargalo. Para um produtor que financia 70% da safra, isso significa pagar juros que podem chegar a 18-20% ao ano (Selic + spread bancário). Em uma safra de soja com margem bruta de 25-30%, esses juros consomem entre 60% e 80% do lucro potencial.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: O setor agrícola (fertilizantes, máquinas, cooperativas) está precificando uma safra mais cara. Empresas como Mosaic, Yara e produtores nacionais sofrem pressão porque o cliente final — o produtor — tem menos poder de compra. Ações de agro devem permanecer sob pressão enquanto Selic não ceder.
Renda fixa: O Tesouro Direto continua atrativo a 14,5%, mas isso é exatamente o problema. Títulos prefixados de longo prazo oferecem retorno que desestimula o crédito agrícola. Bancos preferem emprestar para títulos públicos a risco zero do que para produtor rural.
Câmbio: O dólar a R$ 4,93 é um piso psicológico. Se o real continuar enfraquecendo, o custo de insumos importados sobe, forçando o produtor a reduzir escala ou aumentar endividamento.
O que monitorar
Próximas 48 horas: A resposta do governo ao pedido da CNA. Se o Plano Safra for anunciado com valor próximo aos R$ 623 bilhões, sinalizará que o governo reconhece a pressão. Se ficar abaixo de R$ 500 bilhões, o setor enfrenta redução de área plantada.
Até a próxima decisão do Copom (19 de novembro): Qualquer sinalização sobre redução de Selic muda o jogo. Uma queda de 50 pontos base já aliviaria significativamente o custo de financiamento.
Dólar: Se ultrapassar R$ 5,00, o custo de insumos importados sobe mais 2%, forçando novos pedidos de subsídio ao governo.
