A Confederação Nacional da Indústria manteve a projeção do PIB brasileiro em 2% para 2026, mas elevou a estimativa para o agronegócio a 1,8%. O movimento revela confiança seletiva no setor, mesmo diante de um crescimento econômico geral moderado. A decisão da CNI contrasta com o ceticismo que predomina em outros segmentos da economia e sinaliza que o mercado precifica resiliência específica no campo.
O dólar cotado a R$ 5,0780 nesta manhã reforça essa dinâmica. A moeda americana forte historicamente beneficia exportadores agrícolas, tornando commodities brasileiras mais competitivas no mercado internacional. Com o real sob pressão, produtores de soja, milho e café ganham margem adicional mesmo com preços internacionais estáveis ou em recuo moderado.
O que os dados revelam
A elevação da projeção agrícola para 1,8% enquanto o PIB geral fica em 2% indica que a CNI espera desempenho acima da média no setor. Isso não é trivial. Em 2024, o agronegócio respondeu por aproximadamente 27% do PIB brasileiro e quase 50% das exportações totais. Uma aceleração mesmo modesta nesse segmento tem peso macroeconômico real.
O otimismo reflete três fatores concretos. Primeiro, a safra 2024/2025 de grãos no Brasil projeta-se robusta, com estimativas de 310 a 320 milhões de toneladas. Segundo, a demanda chinesa por proteína animal mantém pressão de compra sobre milho e soja, apesar das tensões comerciais. Terceiro, o câmbio favorável reduz o impacto de eventuais quedas de preços internacionais nas receitas em reais.
O WTI cotado a US$ 79,20 também importa. Combustível mais caro eleva custos de produção e logística, mas não o suficiente para reverter a vantagem cambial. Produtores que já travaram preços de insumos em reais saem na frente.
Impacto por classe de ativo
Para renda variável, a projeção da CNI beneficia ações de empresas agrícolas e de insumos. Empresas como JBS, Marfrig e Embrapa Participações ganham com perspectiva de demanda sustentada. Fertilizantes e defensivos também se alinham com expectativa de safra maior.
Na renda fixa, a manutenção do PIB em 2% não muda o cenário de juros altos. A Selic em 14,25% a.a. continua refletindo pressão inflacionária que a CNI reconhece implicitamente ao manter projeção conservadora para o crescimento geral. Títulos ligados a commodities agrícolas, porém, oferecem proteção cambial atrativa.
No câmbio, o dólar forte tende a se manter enquanto o diferencial de juros Brasil-EUA permanecer amplo. Produtores que ainda não venderam sua próxima safra ganham com cada alta do dólar.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos passos. Primeira: o preço da soja no CBOT. Qualquer queda abaixo de US$ 10,50 por bushel comprime margens mesmo com dólar forte. Segunda: a decisão do Copom nas próximas semanas sobre a Selic. Juros mais altos apertam crédito rural e aumentam custo de financiamento de safra. Terceira: dados de exportação agrícola brasileira em janeiro e fevereiro. Se volumes caírem abaixo do esperado, a CNI pode revisar sua projeção para baixo.
O mercado precifica hoje um agronegócio resiliente, mas não invulnerável. A próxima safra e o comportamento do câmbio são os verdadeiros termômetros.
