A discussão sobre a escala 6x1 no Congresso Nacional ganhou contornos de confronto institucional nesta quarta-feira, com o ministro Ricardo Salles acionando o Supremo Tribunal Federal contra a proposta do governo. O movimento revela uma fissura interna na coligação e coloca em xeque a capacidade de aprovação de reformas estruturais — justamente quando o mercado precisa de sinais de estabilidade fiscal.
O Ibovespa fechou em 188.587 pontos, mantendo-se resiliente apesar da turbulência política. Mas essa aparente calma esconde uma tensão real: o dólar cotado a R$ 4,9878 e a Selic em 14,75% a.a. indicam que investidores estão precificando risco de fragmentação política. Quando há incerteza sobre reformas, o mercado cobra prêmio de risco via câmbio e demanda por juros mais altos.
O que os dados revelam
A resistência do Ibovespa não é força — é inércia. O índice opera próximo de máximas históricas, mas o volume de negócios caiu e a dispersão entre setores aumentou. Isso sugere que grandes investidores estão em modo defensivo, mantendo posições mas sem adicionar exposição.
O dólar a R$ 4,99 é o termômetro mais honesto. Cada ponto percentual de incerteza política empurra o real para baixo porque reduz o apetite por ativos brasileiros. A Selic em 14,75% — a mais alta do mundo desenvolvido — deveria atrair capital estrangeiro. Não está acontecendo. Por quê? Porque o risco político está comendo o prêmio de juros.
A última vez que vimos essa dinâmica foi em 2023, antes da aprovação da reforma tributária. Naquela ocasião, o dólar oscilou entre R$ 4,80 e R$ 5,20 por semanas, até que o Congresso sinalizasse compromisso com a agenda. Agora, a discussão sobre jornada de trabalho é menor em escala, mas o padrão é idêntico: governo dividido, STF como árbitro, mercado penalizando a incerteza.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Setores defensivos (utilities, consumo essencial) devem ganhar fluxo. Setores cíclicos (construção, varejo) sofrem porque reforma trabalhista afeta custos operacionais. O Ibovespa pode cair 2-3% se o confronto entre Salles e o governo se aprofundar.
Renda fixa: A curva de juros tende a se achatar. Investidores migram para papéis curtos (até 2 anos) porque desconfiam da sustentabilidade da Selic em 14,75% se houver deterioração fiscal por falta de reformas. Títulos longos sofrem pressão.
Câmbio: O dólar pode testar R$ 5,05 se o ruído político aumentar. Cada declaração de Salles contra a proposta reforça a narrativa de que o governo não consegue aprovar sua própria agenda.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos dias:
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Votação no Congresso: Se a proposta avançar para votação em plenário nas próximas 48 horas, o dólar sobe. Se for engavetada, há alívio técnico.
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Decisão do STF: A ação de Salles pode ser julgada em dias. Uma liminar contra a proposta reforça o poder do Executivo; uma rejeição enfraquece.
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Comunicado do Banco Central: Na próxima reunião do Copom (em duas semanas), o BC pode sinalizar pausa na Selic se a incerteza política persistir. Isso seria dovish e beneficiaria renda fixa.
O mercado não teme reformas — teme indefinição. Até que haja clareza sobre o resultado dessa disputa, o Ibovespa segue preso entre 188 mil e 190 mil pontos, e o dólar flutua em torno de R$ 5,00.
