O crédito agrícola enfrenta restrição crescente enquanto a inadimplência no setor salta para patamares preocupantes. A pressão chega em momento crítico: faltam dias para o lançamento do Plano Safra 2024/25, quando bancos e cooperativas definem limites de crédito para a próxima colheita. O cenário revela uma contradição incômoda: juros estruturalmente altos (Selic em 14,25% a.a.) reduzem a capacidade de pagamento do produtor exatamente quando ele mais precisa de capital.
Os números do setor rural indicam deterioração. Instituições financeiras reportam aumento de 15% a 20% na taxa de inadimplência em operações de custeio e investimento agrícola nos últimos 12 meses. Esse movimento força bancos a apertar critérios de aprovação, reduzindo o volume ofertado e elevando spreads. O resultado é duplo: menos crédito disponível e mais caro para quem consegue acessá-lo.
O que os dados revelam
A inadimplência rural não é fenômeno isolado. Reflete a compressão de margens que o produtor enfrenta desde 2023: preços de commodities voláteis, custos de insumo elevados e juros que não cedem. Um produtor que tomou crédito a 10% a.a. em 2022 agora refinancia a 12,5% ou 13%. A diferença é marginal em termos de taxa, mas brutal em fluxo de caixa acumulado.
Bancos privados já sinalizaram redução de 8% a 12% nas linhas de crédito rural para o próximo ciclo. Cooperativas de crédito, que respondem por 30% do crédito agrícola, também apertam. Isso não significa colapso de oferta, mas sim seleção: apenas produtores com histórico impecável e garantias robustas acessarão crédito em volume.
O Plano Safra, historicamente, oferecia amortecedor via linhas subsidiadas do Banco do Brasil e BNDES. Mas mesmo essas linhas enfrentam pressão orçamentária. A expectativa é que o volume total de crédito rural fique estável ou recue 3% a 5% em relação ao ciclo anterior.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Ações de empresas de insumos agrícolas (fertilizantes, defensivos) sofrem com perspectiva de redução de plantio. Fabricantes de máquinas também sentem o aperto. Cooperativas agropecuárias cotadas em bolsa já acumulam queda de 8% a 12% desde setembro.
Renda fixa: Debêntures de cooperativas e empresas agrícolas enfrentam repricing. Spreads sobre a taxa DI subiram 80 a 120 pontos-base em seis meses. Investidores exigem compensação maior pelo risco de inadimplência.
Câmbio: Menor volume de crédito pode desestimular investimento em expansão de área. Isso reduz demanda por importação de máquinas e insumos, pressionando levemente o dólar para baixo — efeito marginal, mas real.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos:
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Anúncio do Plano Safra (próximas duas semanas): O volume total de crédito ofertado pelo governo sinalizará se há intenção de compensar o aperto privado. Redução maior que 5% confirmaria cenário restritivo.
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Decisão do Copom na próxima reunião: Qualquer sinalização de corte de juros aliviaria pressão sobre inadimplência. Manutenção da Selic em 14,25% mantém o cenário desafiador.
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Preços de commodities: Alta de soja e milho nos próximos 30 dias melhoraria fluxo de caixa de produtores, reduzindo inadimplência. Queda aceleraria o ciclo restritivo.
O mercado precifica risco crescente no setor. Quem acompanha bolsa nota: cooperativas e distribuidoras de insumos já refletem essa contração. A próxima sessão trará sinais do Plano Safra — ali, a realidade do crédito agrícola em 2025 se revelará.
