As taxas de crédito no Brasil atingem patamares insustentáveis. Enquanto a Selic se mantém em 14,25% ao ano, os bancos cobram spreads cada vez mais agressivos, refletindo não apenas a inflação residual, mas sobretudo o risco fiscal que o mercado precifica diariamente. O resultado é direto: consumidores e empresas pagam mais caro para tomar dinheiro emprestado, comprimindo demanda e reduzindo a margem de manobra do Banco Central para cortar juros.
O movimento não é acidental. A deterioração das contas públicas — com déficit primário estrutural e gastos obrigatórios crescentes — força o Tesouro a competir por recursos no mercado. Quando o governo precisa captar mais, oferece taxas maiores. Bancos, por sua vez, elevam o custo do crédito ao consumidor para compensar o risco de calote em ambiente de aperto monetário. É um círculo vicioso que penaliza justamente quem menos pode pagar.
O que os dados revelam
A taxa média de pessoa física no Brasil ultrapassa 30% ao ano em operações de crédito pessoal — mais que o dobro da Selic. Para pessoa jurídica, o cenário é menos grave, mas ainda acima de 20% em muitos segmentos. Esse diferencial não é novo, mas sua magnitude reflete crescente desconfiança dos credores.
O problema é estrutural. A Selic em 14,25% já é uma das mais altas do mundo em termos reais. Mesmo com inflação controlada, o custo do dinheiro permanece elevado porque o mercado exige compensação pelo risco de insolvência fiscal. Enquanto o governo não demonstrar compromisso crível com o ajuste das contas, os spreads bancários tendem a se manter pressionados.
Historicamente, períodos de consolidação fiscal — como 2017-2018 — viram redução gradual nos spreads. Hoje, a trajetória é inversa. O mercado não acredita que o ajuste virá, e precifica esse ceticismo nas taxas.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas com alto endividamento sofrem mais. Setores cíclicos — varejo, construção, consumo — veem margens comprimidas. O Ibovespa em 177.866 pontos reflete essa tensão: há espaço para ganho se houver sinalização de austeridade, mas risco de queda se o fiscal piorar.
Renda fixa: A curva de juros futuros precifica Selic acima de 14% por mais tempo que o esperado há três meses. Títulos pré-fixados longos oferecem rendimento atrativo, mas carregam risco de capital loss se houver surpresa positiva no fiscal.
Câmbio: O dólar em R$ 5,1088 reflete, em parte, o diferencial de juros Brasil-EUA. Se a Selic cair sem que o fiscal melhore, o real sofre pressão adicional.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos:
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Resultado fiscal mensal — cada dado de arrecadação e despesa será interpretado como sinal de compromisso (ou falta dele) com o ajuste.
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Comunicação do Tesouro — sinalizações sobre medidas de contenção de gastos podem reduzir o prêmio de risco nas taxas de crédito.
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Decisão do Copom na próxima reunião — se o BC cortar Selic sem que o fiscal melhore, spreads podem subir ainda mais, anulando o efeito da redução de juros para o consumidor final.
O mercado está claro: não é a inflação que prende a Selic em 14,25%, é a desconfiança fiscal. Enquanto isso não mudar, crédito caro é o novo normal.