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Macroeconomia Brasil

Crédito em risco: Selic alta ameaça rentabilidade de fundos

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Foto: LoboStudioHamburg / Pexels

O mercado de crédito brasileiro enfrenta um dilema estrutural: com a Selic em 14,50% ao ano, a rentabilidade de operações de crédito pessoa física e jurídica fica comprimida entre a taxa de juros e o risco de inadimplência. Sem uma trajetória clara de queda dos juros nas próximas semanas, analistas alertam que fundos de crédito podem sofrer deterioração acelerada de carteiras, forçando repricing agressivo de spreads.

O cenário atual revela uma armadilha: taxas nominais altas atraem captação, mas reduzem a margem real de lucro das instituições financeiras. Quando o custo do dinheiro está próximo do teto, a diferença entre o que os bancos pagam aos depositantes e cobram dos tomadores encolhe. Isso pressiona a qualidade das operações originadas, pois há incentivo para relaxar critérios de concessão apenas para manter volumes.

O que os dados revelam

A Selic em 14,50% representa o patamar mais restritivo para o crédito em meses. Historicamente, quando a taxa de juros básica ultrapassa 13%, o volume de operações de crédito começa a contrair e a inadimplência sobe — não imediatamente, mas com defasagem de 2 a 3 trimestres. O mercado já precifica essa dinâmica: fundos de crédito que apostaram em spreads mais apertados enfrentam marcação a mercado negativa conforme o risco de calote aumenta.

O ponto crítico é que a Selic não está em trajetória de queda. Enquanto o Banco Central mantém a taxa elevada para controlar a inflação, o mercado de crédito fica preso numa tesoura: não consegue oferecer retornos atrativos sem assumir risco desproporcional. Operações de crédito pessoal, que historicamente rendem 25% a 35% ao ano, agora precisam oferecer spreads menores porque o custo do funding subiu.

Impacto por classe de ativo

Renda fixa sofre o maior impacto. Fundos de crédito privado e debentures corporativas com rating baixo (BB, B) enfrentam repricing para baixo — o que significa perdas marcadas para quem entrou em posições quando os spreads eram mais apertados. Já as debêntures de primeira linha (AAA, AA) resistem melhor porque o diferencial de risco é menor.

Renda variável também sente o efeito colateral. Bancos que dependem de crédito como fonte de receita (Itaú, Bradesco, Santander) veem margens comprimidas. Financeiras especializadas em crédito pessoa física (Cetesdireto, Sorocred) sofrem pressão ainda maior porque operam com spreads mais finos.

O dólar a R$ 5,02 complica o cenário para quem tem exposição em dívida externa. Empresas que tomaram crédito em moeda estrangeira veem o custo real subir conforme o real enfraquece.

O que monitorar

Três variáveis definem os próximos movimentos:

1. Sinalização do Copom: na próxima reunião, o Banco Central pode sinalizar início de ciclo de cortes. Se mantiver a Selic inalterada, o mercado de crédito enfrenta mais pressão.

2. Taxa média de inadimplência: dados do Banco Central mostram a taxa de calote em operações de crédito. Se ultrapassar 4% (está próxima disso), fundos de crédito serão forçados a provisionar mais, reduzindo retornos.

3. Spreads de crédito: acompanhe o diferencial entre taxa média de crédito pessoa física e a Selic. Quando esse spread cai abaixo de 8 pontos percentuais, o risco-retorno fica desfavorável.

Nas próximas 48 horas, qualquer sinal de inflação acima do esperado reforça a tese de Selic elevada por mais tempo. Isso seria negativo para crédito.

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