Os bancos estão apertando as molas do crédito ao agronegócio. A oferta de financiamento para custeio e investimento encolhe justamente quando a safra 2024/25 demanda recursos maiores — uma contradição que revela tensão real no setor.
O volume de renegociações (RJs) atingiu patamares recordes recentemente, sinalizando stress crescente entre produtores. Em resposta, instituições financeiras elevam exigências de garantia e reduzem limites de crédito, criando gargalo que penaliza especialmente pequenos e médios produtores com histórico menos transparente. O efeito cascata é simples: quem consegue crédito paga mais caro; quem não consegue adia investimentos ou reduz área plantada.
O que os dados revelam
O aumento de inadimplência no crédito agrícola não é casual. Reflete pressão de dois lados: margens menores para o produtor (preços internacionais de commodities menos generosos) e custos mais altos (insumos, combustível). Quem estava na corda bamba — operação com pouca margem, financiamento acima da capacidade — desaba para a renegociação.
Os bancos, por sua vez, veem deterioração de carteira e viram a chave. Aquele crédito fácil de 2022 e 2023 agora é revirado: cada novo desembolso passa por análise mais apertada, exigências de caução real aumentam, prazos podem ser reduzidos. O fenômeno é conhecido no mercado como "repricing de risco": o banco reassessa o custo do crédito agrícola e sobe a taxa ou corta exposição.
A redução da oferta de crédito em momento de necessidade de capital (início de safra exige desembolsos para insumo, mecanização, manutenção) força produtores a três caminhos: aumentar endividamento via cooperativas ou financeiras paralelas (mais caro), reduzir escala de operação ou buscar recursos próprios (quando existem). Nenhum é indolor.
Impacto por segmento
Grandes produtores integrados ao sistema financeiro global conseguem crédito — têm acesso a pré-financiamento de exportação e linhas internacionais. O sufoco é de classe média: fazendeiro de 500 a 5 mil hectares, que dependia de crédito bancário convencional e agora enfrenta restrição.
O setor de insumos (fertilizantes, defensivos) também sofre impacto indireto. Produtor que não consegue crédito adia compras, o que pressiona receita de empresas como Yara, Corteva e distribuidoras. A compressão de crédito agrícola transborda em cadeia.
Em renda fixa, não há grande movimento — a Selic segue em 14,25% a.a., mantendo custo do dinheiro elevado para o sistema bancário. O que muda é a seletividade: bancos priorizam crédito pessoal e pessoa jurídica de baixo risco; crédito agrícola é repriorizado para baixo na carteira.
O que monitorar
Três sinais concretos indicam se a restrição vai piorar ou ceder:
Primeiramente, o volume total de crédito rural desembolsado até junho — se continuar retraindo, é sinal de que restrição persiste. A safra de soja e milho depende desses desembolsos nas próximas 6-8 semanas.
Segundo, taxa média de juros no crédito agrícola. Se subir além de 9-10% a.a., pequenos produtores saem do mercado efetivamente. Hoje está na faixa de 8-9% para grandes, 10-12% para pequenos.
Terceiro, quantidade de novas renegociações mês a mês. Se o fluxo de RJs desacelerar, indica que o pior da inadimplência passou; se mantiver recorde, sinaliza deterioração continuada que afasta mais crédito.
O próximo passo é observar se o Copom mantém Selic elevada nas próximas decisões — juros mais altos amplificam o problema; cortes futuros poderiam aliviar. Mas no curto prazo (até colheita), a restrição de crédito deve persistir como fator de pressão no agro.