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Macroeconomia Brasil

Dólar a R$ 5,02 desafia Selic de 14,75%: carry trade perdeu força?

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Spread of US dollar bills on black surface with stylus, symbolizing finance and technology.
Foto: Engin Akyurt / Pexels

A cotação do dólar em R$ 5,0229 na noite desta terça-feira expõe uma contradição que o mercado brasileiro não consegue mais ignorar: uma taxa Selic de 14,75% ao ano deveria ser suficiente para atrair fluxos externos e depreciar a moeda americana. Não está. Isso revela que os fundamentos do carry trade — a aposta de tomar dólar barato lá fora e aplicar em juros altos aqui — perderam credibilidade.

O diferencial de juros Brasil-EUA permanece atrativo em números absolutos. Mas o que importa para o investidor estrangeiro não é apenas a taxa nominal: é a expectativa de desvalorização do real. Se o investidor precifica uma queda adicional da moeda brasileira nos próximos meses, nenhuma taxa de juros compensa. O Ibovespa em 197.323 pontos, praticamente estável, sinaliza que nem mesmo o mercado de ações consegue atrair capital externo com força.

O que os dados revelam

A persistência do dólar acima de R$ 5,00 apesar de uma Selic em dois dígitos sugere que o prêmio de risco Brasil está reprificado para cima. Historicamente, quando a Selic ultrapassou 14%, o real tendeu a se fortalecer. A última vez que vimos essa combinação — juros altos e dólar forte — foi em 2020-2021, quando o cenário era de incerteza fiscal e pressão inflacionária.

O cruzamento de duas variáveis é revelador: o VIX global em 19,5 (moderado) não justifica aversão ao risco emergente. Se fosse puro flight-to-safety, esperaríamos ver o dólar mais forte contra todas as moedas. Mas o que ocorre é seletivo: o real enfraquece enquanto outras moedas emergentes resistem melhor. Isso aponta para fatores específicos do Brasil — provavelmente a trajetória fiscal e a credibilidade da política monetária.

O petróleo em US$ 114,01 oferece uma pista adicional. Com a commodity em patamar elevado, o Brasil deveria capturar receitas cambiais maiores. Não está acontecendo com força. Investidores externos podem estar precificando uma deterioração maior da posição fiscal antes de retomar posições em reais.

Impacto por classe de ativo

Renda variável: O Ibovespa resiste, mas sem convicção. Setores exportadores (commodities, papel e celulose) ganham com dólar forte, mas isso não compensa a aversão ao risco Brasil. Bancos sofrem pressão porque a curva de juros futura embutida no mercado sugere cortes de Selic — reduzindo margens.

Renda fixa: A curva de juros já precifica dois ou três cortes do Copom nos próximos meses. Se a Selic cair para 13,5% ou 13%, o diferencial Brasil-EUA encolhe ainda mais, tornando o carry trade ainda menos atrativo. Títulos pré-fixados em prazos longos sofrem pressão porque a inflação futura permanece incerta.

Câmbio: O dólar segue com pressão de oferta baixa. Não há fluxo externo robusto entrando. O Banco Central pode intervir, mas intervenções pontuais não resolvem o problema estrutural: a falta de confiança na trajetória fiscal.

O que monitorar

  1. Próxima decisão do Copom (fevereiro): Se o comunicado sinalizar cortes de Selic mais agressivos que o mercado espera, o dólar pode romper R$ 5,10. Inversamente, se o BC mantiver linguagem hawkish, há chance de recuperação do real.

  2. Dados de inflação de janeiro: Qualquer surpresa para cima reforça a tese de que a Selic não cai tão rápido, sustentando o diferencial de juros.

  3. Fluxo de capital externo: Acompanhe os dados semanais de investimento estrangeiro em renda variável e fixa. Se continuarem negativos, o dólar segue pressionado independentemente da taxa de juros.

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