O dólar fechou em R$ 4,9806 nesta quinta-feira e já testa o próximo alvo técnico em R$ 4,90. A pressão sobre o real persiste apesar da Selic em 14,75% ao ano — a segunda maior taxa de juros do mundo desenvolvido. Essa contradição revela um problema estrutural: o diferencial de juros Brasil-EUA não é mais suficiente para atrair capital estrangeiro.
O Ibovespa subiu 198.587 pontos, mas a valorização do dólar em relação ao real continua capturando atenção. Bitcoin disparou 4% para US$ 75.123, sinalizando apetite por risco global. O VIX em 19,1 (moderado) mostra que o medo não é o culpado. A questão é outra: fluxos de capital estão saindo do Brasil.
O que os dados revelam
A Selic a 14,75% deveria ser um escudo contra depreciação cambial. Não está sendo. Quando a taxa de juros doméstica supera a estrangeira em mais de 10 pontos percentuais, o carry trade — estratégia de tomar dólar barato e aplicar em ativos brasileiros — deveria funcionar. Mas o real enfraquece mesmo assim.
Isso indica que investidores internacionais estão precificando risco Brasil acima do retorno oferecido. A combinação de incerteza fiscal (discussão sobre gastos públicos), inflação persistente e perspectiva de cortes de juros nos EUA cria um cenário onde sair do real compensa mais do que ficar.
O petróleo WTI em US$ 114,01 oferece suporte limitado. A Petrobras é um dos maiores pesos do Ibovespa, mas a valorização do dólar reduz o atrativo de seus dividendos em reais para investidores externos.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas com receita em dólar (Petrobras, Vale, Natura) ganham com a depreciação do real. Mas empresas com endividamento em dólar sofrem. O setor financeiro também é pressionado — bancos veem suas margens de juros comprimidas com a Selic elevada.
Renda fixa: A curva de juros já precifica a possibilidade de o Copom manter a Selic em 14,75% por mais tempo. Títulos prefixados de longo prazo estão mais atrativos, mas o risco cambial penaliza quem tem exposição em dólar.
Câmbio: O real está em zona de vulnerabilidade. Se o dólar romper R$ 4,90, o próximo suporte técnico fica em R$ 4,85. Acima de R$ 5,00, a pressão inflacionária volta à agenda.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Comunicado do Copom sobre a próxima decisão de juros. Se houver sinalização de corte, o real sofre mais pressão.
Até a próxima reunião do Copom (fevereiro): Dados de inflação (IPCA) e atividade econômica. Se a inflação desacelerar, o BC terá mais espaço para cortar juros — e o real enfraquece.
Monitorar fluxo de capital: Dados de investimento estrangeiro direto e em portfólio. Se o fluxo continuar negativo, o dólar ultrapassa R$ 5,00 com facilidade.
