O dólar abriu em queda nesta quinta-feira, cotado a R$ 4,8973, refletindo uma dinâmica que desafia a narrativa de pressão cambial que dominou o mercado nas últimas semanas. A Selic permanece em 14,5% ao ano — patamar que continua atraindo capital estrangeiro para renda fixa brasileira — enquanto o Ibovespa marca 181.909 pontos. A combinação sugere que o real encontra suporte não apenas em juros altos, mas também na relativa estabilidade do apetite por risco global, com o VIX em 17,2 (moderado).
O movimento é relevante porque interrompe uma sequência de pressão sobre a moeda brasileira. Desde o início do ano, o real enfrentou fluxos de saída relacionados ao carry trade — operações que se financiam em moedas de juros baixos para aplicar em ativos de maior retorno. Agora, com a Selic mantida em patamar elevado e a volatilidade global contida, a equação muda. O investidor estrangeiro que saiu em pânico começa a reavaliar posições.
O que os dados revelam
A cotação do dólar a R$ 4,8973 representa uma descompressão técnica importante. Quando o real estava a R$ 5,00 ou acima, havia narrativa de crise cambial. Agora, com o recuo, o mercado precifica uma realidade menos dramática: a Selic de 14,5% segue sendo atrativa globalmente, e o Banco Central tem credibilidade para manter a taxa neste patamar sem gerar pânico inflacionário.
O petróleo WTI a US$ 109,76 também importa. Combustível mais caro reduz pressão sobre o balanço de pagamentos brasileiro — menos dólares saindo para importação de energia. Bitcoin recuando 0,5% para US$ 80.723 indica que o apetite por risco está controlado, não em fuga. O VIX moderado confirma: não há pânico global que justifique venda massiva de ativos brasileiros.
A última vez que o real encontrou suporte tão claro em juros altos foi em 2021, antes da inflação global explodir. Hoje, o contexto é diferente: o Banco Central tem margem para manter Selic elevada porque a inflação doméstica está sob controle relativo. Isso cria um piso para o dólar em torno de R$ 4,85-4,90.
Impacto por classe de ativo
Para renda variável, o recuo do dólar é positivo. Empresas exportadoras — Vale, Petrobras, JBS — ganham competitividade quando a moeda se aprecia. O Ibovespa em 181.909 pontos reflete essa dinâmica. Setores defensivos, como utilities, também se beneficiam porque reduz o custo de refinanciamento em dólar.
Em renda fixa, a Selic em 14,5% mantém títulos prefixados atraentes. Não há pressão imediata por cortes de juros. Fundos de renda fixa que apostaram em queda da taxa enfrentam realidade adversa. Quem está em LCI/LCA com taxas acima de 13% está bem posicionado.
O câmbio, por sua vez, sinaliza que o fluxo de saída de capital — que foi intenso em janeiro — está arrefecendo. Isso reduz pressão sobre reservas internacionais do Banco Central.
O que monitorar
Acompanhe a próxima decisão do Copom, marcada para 4 e 5 de fevereiro. Se o Banco Central sinalizar manutenção da Selic, o dólar pode testar R$ 4,80. Se houver sinais de corte futuro, o real sofre pressão novamente.
O fluxo de capital estrangeiro é o segundo termômetro crítico. Dados de investimento direto e portfolio flows, divulgados regularmente pelo Banco Central, mostram se o real está recuperando confiança ou se o recuo é apenas técnico.
Por fim, acompanhe o comportamento do petróleo. Se WTI cair abaixo de US$ 100, a pressão cambial retorna. Acima de US$ 110, o real ganha mais suporte.
