O El Niño voltou a acender o alerta entre produtores e investidores. A intensificação do fenômeno climático nos próximos meses coloca em risco a safra 2024/2025, justamente quando o Brasil consolida sua posição como maior exportador agrícola do mundo. O mercado ainda não precificou completamente essa ameaça — o Ibovespa segue em 176.717 pontos, com setores de commodities operando sem pânico aparente. Mas a janela de vulnerabilidade está aberta, e os próximos 60 dias serão críticos para definir a magnitude do impacto.
O que os dados revelam
O El Niño traz consigo padrões climáticos previsíveis: secas em regiões produtoras do Centro-Oeste e Sul, chuvas irregulares no Nordeste. Historicamente, cada episódio moderado a forte reduz a produção de grãos entre 8% e 15%. A safra 2023/2024 já sofreu com isso — a produção de milho caiu 18% na comparação anual, e a soja recuou 7%. Agora, com o fenômeno se intensificando, o risco de repetição ou piora é real.
O movimento do dólar a R$ 5,12 reflete, em parte, essa preocupação. Quando a safra ameaça encolher, o Brasil exporta menos, reduz entrada de divisas e pressiona a moeda para cima. Não é o único fator — a taxa Selic em 14,25% a.a. mantém o carry trade atrativo — mas a dinâmica agrícola pesa na equação cambial.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Os setores mais expostos são fertilizantes (Mosaic, Vale), trading agrícola (Amaggi, Bunge) e processadoras (JBS, Marfrig). Uma redução de 10% na safra de grãos pressiona margens de traders e reduz demanda por insumos. O Ibovespa, porém, ainda não desconta esse cenário com força — o índice mantém ponderação alta em bancos e energia, que sofrem menos com clima.
Renda fixa: A curva de juros não deve se mover drasticamente por El Niño isoladamente. Mas se a safra ruim acelerar inflação de alimentos (peso de 9% no IPCA), o Copom pode ser forçado a manter a Selic elevada por mais tempo. Isso beneficia papéis prefixados de longo prazo.
Câmbio: O real segue sob pressão estrutural. Uma safra 30% menor que o esperado pode custar ao Brasil entre US$ 3 e 5 bilhões em exportações. Isso amplia o déficit em conta corrente e sustenta o dólar acima de R$ 5,10.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos passos:
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Previsão de chuvas (próximas 2-3 semanas): Modelos climáticos do INMET e da NOAA serão atualizados em breve. Se confirmarem seca prolongada no Centro-Oeste, o mercado reprecia para baixo.
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Comunicação do CONAB: O órgão divulga estimativas de safra mensalmente. A próxima leitura oficial pode trazer cortes de 5% a 12% na projeção de grãos.
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Reação de preços internacionais: Milho e soja em Chicago já refletem preocupações globais com clima. Se subirem 8% ou mais, pressionam custos domésticos e reforçam inflação local.
O mercado ainda opera com esperança de que El Niño seja moderado. Mas a probabilidade de safra abaixo do potencial está em 65%. Investidores que ignoram esse risco correm o risco de ser surpreendidos nas próximas 6 semanas.