O El Niño segue pressionando as perspectivas de safra para café e caqui no Brasil. O fenômeno climático, que altera padrões de chuva e temperatura em regiões produtoras estratégicas, reduz a previsibilidade de rendimento e força o produtor a antecipar decisões de manejo em um cenário de dólar em 5,08 reais — nível que encarece insumos importados e comprime margens já tensionadas.
O impacto não é teórico. Regiões cafeeiras do Sul de Minas e São Paulo enfrentam períodos de estiagem alternados com chuvas concentradas, padrão típico de El Niño. Para o caqui, cultivado principalmente em São Paulo e Paraná, o estresse hídrico durante a floração reduz a fixação de frutos. Produtores que não anteciparem irrigação suplementar ou ajustes de poda enfrentarão perdas de 15% a 25% na produtividade — margem que, em preços atuais, representa impacto direto no fluxo de caixa.
O que os dados revelam
O padrão de El Niño em 2024-2025 diferencia-se de episódios anteriores pela intensidade concentrada em períodos curtos. Histórico mostra que safras de café em anos de El Niño moderado recuam 8% a 12% em volume; em episódios fortes, a queda chega a 20%. O caqui, cultura mais sensível ao estresse hídrico, apresenta variabilidade ainda maior — oscilações de 25% a 35% entre safras normais e afetadas.
O dólar em 5,08 reais amplifica o problema. Produtor que depende de fertilizantes importados (potássio, fósforo) vê custo de insumo subir 8% a 10% em reais apenas pela variação cambial. Simultaneamente, preços internacionais de café arábica no CBOT refletem oferta global apertada — o que deveria beneficiar o produtor brasileiro é parcialmente neutralizado pelo custo de produção elevado em moeda local.
Impacto por classe de ativo
Renda variável (agronegócio): Empresas de insumos e processamento de café sofrem pressão. Fabricantes de fertilizantes veem demanda por produtos de proteção contra seca aumentar, mas margens caem pela competição. Processadoras de café enfrentam redução de oferta doméstica, forçando importação de café verde a preços internacionais elevados — squeeze de margem.
Renda fixa: Produtor com dívida em reais sente alívio relativo (juros nominais em 14,25% a.a. continuam altos, mas a receita em dólares melhora). Porém, produtor sem hedge cambial sofre: receita em dólar não acompanha custo em reais.
Câmbio: Pressão por dólar permanece enquanto El Niño reduzir oferta de commodities agrícolas — fator que sustenta demanda por moeda estrangeira para importação de insumos.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Boletins meteorológicos do INMET sobre precipitação em Minas Gerais e São Paulo. Qualquer previsão de estiagem prolongada dispara compra de insumos e pressiona dólar agrícola.
Até a próxima reunião do Copom: Dinâmica de juros reais. Se Selic recuar, produtor com dívida em reais ganha respiro; se mantiver-se elevada, carry trade em dólar permanece atrativo, sustentando pressão cambial.
Indicador crítico: Preço de café arábica no CBOT. Se romper acima de US$ 2,50 por libra-peso, sinaliza oferta global ainda mais apertada — compensando parcialmente a redução de safra brasileira. Abaixo desse nível, produtor enfrenta duplo impacto: volume menor e preço pressionado.
