O El Niño volta a assombrar o agronegócio brasileiro. Após dois anos de normalidade climática, o fenômeno ressurge com força suficiente para comprometer a produção de grãos na próxima safra, elevando custos e reduzindo margens de produtores em todo o país. A ameaça é concreta: simulações de institutos de pesquisa apontam perdas de até 15% na produtividade de soja e milho em regiões críticas do Centro-Oeste.
O mercado já precifica essa incerteza. O petróleo WTI recua para US$ 69,60, refletindo preocupações com demanda global caso a estiagem reduza a oferta de alimentos e pressione inflação em economias emergentes. Para o Brasil, o cenário é duplo: menor produção doméstica eleva importações de alimentos, enquanto a redução de exportações de commodities enfraquece o fluxo de dólares para o país.
O que os dados revelam
O El Niño não é novidade climática, mas sua intensidade atual diferencia este ciclo. Modelos de previsão indicam anomalias de temperatura oceânica entre +1,5°C e +2°C acima da média, condição que historicamente reduz chuvas no Centro-Oeste e Sul entre outubro e março. A safra 2024/2025 será colhida justamente nesse período crítico.
O impacto não é uniforme. Regiões como Mato Grosso e Goiás enfrentam maior risco de seca, enquanto o Rio Grande do Sul pode sofrer com chuvas excessivas. Essa polarização complica a previsão de oferta agregada e amplia a volatilidade de preços. Historicamente, El Niños moderados elevam o preço da soja em 8% a 12% durante o ciclo de plantio e desenvolvimento.
O dólar já sente essa pressão. A moeda americana cotada a R$ 5,0742 reflete não apenas a taxa Selic em 14,25% a.a., mas também a expectativa de menor entrada de dólares via exportações agrícolas. Produtores que dependem de receita em moeda estrangeira enfrentam margem comprimida.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: O setor agrícola da B3 divide-se entre vencedores e perdedores. Empresas de insumos (fertilizantes, defensivos) ganham com aumento de custos de produção — produtores tentarão compensar perdas de produtividade com maior aplicação de tecnologia. Já as tradings de commodities sofrem com redução de volume exportável. O Ibovespa em 175.739 pontos reflete essa incerteza setorial.
Renda fixa: A inflação de alimentos pressiona expectativas de inflação geral. Se o El Niño reduzir oferta doméstica, o Banco Central pode enfrentar dilema: manter Selic elevada para conter inflação de importações ou flexibilizar para estimular produção. A curva de juros futuros já precifica esse risco.
Câmbio: Menor oferta de dólares via agro enfraquece o real. O movimento é estrutural: uma safra 15% menor significa redução de cerca de US$ 3 a 5 bilhões em receitas de exportação, dependendo dos preços internacionais.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos passos:
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Índices de precipitação em tempo real — Dados semanais do INPE mostrarão se a seca se materializa ou se chuvas isoladas amenizam o risco. Até meados de dezembro, teremos clareza sobre o cenário para janeiro-fevereiro.
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Preços de futuros de soja e milho — A CBOT (Chicago Board of Trade) já opera com prêmio de risco. Se o El Niño se intensificar, espera-se rompimento de resistências e novos patamares de preço.
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Comunicação do Banco Central — Na próxima reunião do Copom, o BC sinalizará se vê inflação de alimentos como transitória ou estrutural. Isso define a trajetória de juros e, consequentemente, o apetite por risco em renda variável.