A Agência Nacional do Petróleo registrou queda de preços do etanol em 12 estados brasileiros na última semana. O movimento reflete a pressão de uma safra recorde de cana-de-açúcar sobre os valores, mesmo com o dólar operando a R$ 4,97 — nível que historicamente sustentaria preços mais firmes no mercado doméstico.
A contradição é clara: em cenários normais, um dólar acima de R$ 4,95 deveria ancorar preços do etanol em patamares mais altos, dado que a commodity é precificada em dólares nos mercados futuros. A queda simultânea em 12 regiões sugere que o excesso de oferta local está sobrepesando o efeito cambial. Isso é relevante porque sinaliza que a pressão de safra será estrutural nos próximos meses, não apenas um fenômeno sazonal.
O que os dados revelam
A redução de preços em múltiplos estados indica que a oferta de etanol está desacoplada do câmbio. Enquanto o real enfraquece (dólar a R$ 4,97), o etanol cai — comportamento que ocorre apenas quando há excesso genuíno de produto no mercado. A safra 2024/2025 projeta crescimento de 15% a 20% na produção de cana, segundo estimativas do setor.
Essa dinâmica contrasta com o cenário de juros elevados (Selic a 14,75% a.a.), que deveria desestimular investimentos em ampliação de capacidade. Mas a realidade é que usinas já operavam com capacidade ociosa, e agora aproveitam a safra recorde para maximizar moagem. O resultado: pressão contínua sobre preços.
O petróleo WTI a US$ 91,06 oferece pouco suporte. Historicamente, etanol acompanha combustíveis fósseis quando há escassez global. Aqui, não há. A gasolina segue abundante, e o etanol compete por espaço na bomba em condições desfavoráveis.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Produtoras de etanol (Raízen, Copersucar) enfrentam margem comprimida. O Ibovespa a 192.889 pontos reflete essa realidade — o setor de energia renovável não está em alta. Investidores que apostavam em valorização do etanol como alternativa verde devem rever posições.
Renda fixa: A queda de preços do etanol reduz inflação de combustíveis, o que alivia pressão sobre a curva de juros. Mas a Selic a 14,75% já precifica essa realidade. Não há grande movimento esperado na curva de curto prazo.
Câmbio: O dólar a R$ 4,97 continua pressionado pela Selic elevada. O etanol mais barato não muda essa dinâmica, mas reforça que commodities agrícolas brasileiras estão em ciclo de oferta abundante — fator que historicamente enfraquece o real no médio prazo.
O que monitorar
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Próximas leituras de preço da ANP (semanais): Se a queda se estender para mais de 15 estados, sinaliza que o piso de preço foi rompido. Isso afetaria decisões de moagem das usinas.
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Exportações de etanol: Dados de embarques nas próximas 2-3 semanas dirão se o Brasil consegue drenar o excesso de oferta via mercado externo ou se o produto ficará represado domesticamente.
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Decisão do Copom em dezembro: Se a Selic cair, o dólar pode fortalecer, oferecendo suporte aos preços do etanol. Mas isso é secundário — a safra é o driver principal agora.
