A crise global de fertilizantes segue pressionando os custos de produção da safra de verão brasileira, com reflexos diretos no preço do milho e na margem dos produtores. O cenário combina oferta restrita no mercado internacional com demanda firme, criando um gargalo que não deve se resolver nos próximos meses.
O petróleo WTI cotado a US$ 97,63 amplifica o problema. Fertilizantes nitrogenados dependem diretamente do gás natural, e o custo elevado de energia encareceu a produção global. Rússia e Belarus, responsáveis por 40% das exportações mundiais, enfrentam sanções que limitam embarques. Marrocos, maior produtor de fosfato, também restringe vendas. O resultado: preços de fertilizantes 35% a 45% acima dos patamares de 2021, segundo dados de operadores.
O que os dados revelam
O impacto cascata é direto no Brasil. Produtores que já compraram insumos para o plantio de verão (dezembro a janeiro) enfrentam custos 20% a 30% superiores ao ciclo anterior. Quem ainda não adquiriu enfrenta dilema: comprar agora a preços altos ou esperar por queda improvável nas próximas semanas.
A dinâmica de preços do milho reflete essa pressão. A cotação média no Brasil oscila entre R$ 65 e R$ 75 por saca, dependendo da região e qualidade. Para o produtor, a margem bruta encolhe quando o custo do fertilizante (que representa 25% a 30% do custo total de produção) sobe sem que o preço final do grão acompanhe na mesma proporção.
Historicamente, crises de fertilizantes duram 18 a 24 meses. A última grande escassez, em 2008, pressionou os preços de grãos por todo esse período. Desta vez, o cenário geopolítico sugere duração similar ou maior.
Impacto por classe de ativo
No mercado de renda variável, empresas de fertilizantes como Mosaic, CF Industries e Yara ganham com preços elevados — mas o mercado já precifica essa realidade. O verdadeiro impacto negativo recai sobre produtores e traders de grãos, que veem margens comprimidas.
Produtoras de milho e soja listadas na B3 enfrentam pressão: custos de insumos crescem mais rápido que a receita. Empresas com hedge cambial (que compraram fertilizantes em dólar no passado) têm vantagem temporária, mas novos contratos de plantio já refletem o custo atual.
No câmbio, a pressão sobre o real em R$ 5,0569 também complica. Fertilizantes são importados em dólar, então cada depreciação do real encarece ainda mais o insumo para o produtor brasileiro.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos:
Preço do gás natural na Europa. Se recuar abaixo de US$ 25 por MWh, fabricantes europeus podem retomar produção e aumentar oferta global. Atualmente oscila entre US$ 30 e US$ 35.
Negociações geopolíticas envolvendo Rússia e Belarus. Qualquer flexibilização de sanções liberaria volumes significativos de fertilizantes para o mercado.
Decisão de produtores brasileiros sobre plantio. Se reduzirem área plantada de milho por falta de rentabilidade, a demanda por fertilizantes cai, aliviando preços — mas isso prejudica a safra e a renda do setor.
Nas próximas 4 a 6 semanas, o mercado aguarda dados de intenção de plantio do IBGE. Se produtores sinalizarem redução de área, o alívio será parcial: preços já altos não caem rapidamente, mas a demanda menor reduz pressão futura.
