O governo coleciona uma vitória fiscal inesperada: a arrecadação com impostos sobre importações cresceu 25% e atingiu novo recorde. O movimento revela uma realidade incômoda que o mercado já precifica há semanas — a pressão tributária sobre o consumidor está funcionando, mas a que custo?
Enquanto Brasília celebra os números, o dólar cotado a R$ 4,90 e a Selic em 14,50% a.a. contam outra história. O real enfraquecido e os juros elevados sinalizam que investidores descontam riscos fiscais crescentes. A arrecadação recorde não resolve o problema estrutural: o governo gasta mais do que arrecada, e essa brecha só piora com o tempo.
O que os dados revelam
O crescimento de 25% na arrecadação com impostos sobre importações não é acidental. Reflete a estratégia deliberada de taxar bens importados — especialmente eletrônicos e roupas — para proteger a indústria doméstica e ampliar a base tributária. Funciona no curto prazo. Mas o mercado não está convencido de que essa receita extra resolverá o déficit fiscal.
A cotação do dólar a R$ 4,90 é o termômetro dessa desconfiança. Quando investidores estrangeiros temem deterioração fiscal, vendem reais. O Ibovespa em 183.366 pontos mantém resiliência, mas isso ocorre apesar da pressão cambial, não por causa dela. Setores exportadores ganham com dólar forte, mas empresas que dependem de importações de insumos sofrem margens comprimidas.
A Selic em 14,50% amplifica o dilema. Juros altos controlam inflação, mas oneram a dívida pública. Cada ponto percentual de aumento na taxa de juros custa bilhões ao Tesouro em despesas com serviço da dívida. O governo tenta resolver um problema fiscal com impostos sobre importações enquanto o Banco Central aperta a política monetária — uma combinação que desacelera o consumo e reduz a base de arrecadação futura.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Setores exportadores (commodities, agronegócio) se beneficiam do dólar forte, mas varejistas e empresas de tecnologia sofrem com redução de demanda. O Ibovespa reflete esse conflito — ganhos em ações defensivas compensam perdas em cíclicas.
Renda fixa: A curva de juros precifica expectativa de Selic elevada por mais tempo. Títulos prefixados de prazos curtos (até 2 anos) oferecem rendimentos atrativos, mas a incerteza fiscal pressiona os prazos longos. Investidores exigem prêmio maior para emprestar ao governo em horizontes de 5+ anos.
Câmbio: O dólar a R$ 4,90 reflete o diferencial de juros (carry trade) e prêmio de risco fiscal. Enquanto o governo não apresentar plano crível de ajuste estrutural, o real permanece vulnerável a choques externos.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos: (1) a próxima decisão do Copom sobre a Selic — qualquer sinalização de pausa nos aumentos aliviaria o dólar; (2) o resultado das contas públicas em janeiro — se a arrecadação recorde se sustenta ou era efeito sazonal; (3) comunicados do Tesouro sobre ajuste fiscal — o mercado aguarda medidas estruturais, não apenas impostos pontuais.
Nas próximas 48 horas, a abertura de Wall Street pode amplificar volatilidade. O VIX global em 17,1 (moderado) deixa espaço para surpresas. Se dados americanos decepcionarem, fluxos para mercados emergentes podem aliviar pressão no real. Mas sem sinalização clara de ajuste fiscal brasileiro, qualquer alívio será temporário.
