A inadimplência no Brasil segue em trajetória preocupante enquanto a relação dívida/PIB bate recordes, criando um dilema estrutural que explica por que o Banco Central mantém a Selic em 14,50% a.a. — a taxa real mais elevada do mundo desenvolvido. O aperto monetário, longe de ser uma escolha, é uma necessidade para conter a inflação de serviços e evitar uma deterioração ainda maior das contas públicas.
Os números revelam a armadilha: quanto mais alta a Selic, maior o custo de rolagem da dívida federal, que já consome mais de 90% da receita tributária bruta. Simultaneamente, a inadimplência das famílias avança porque consumidores endividados a taxas de 2% a.m. não conseguem acompanhar o ritmo de aperto. O resultado é um mercado de crédito travado — bancos reduzem concessões, PIB cresce menos, receita tributária estagua, e a dívida/PIB segue sua trajetória insustentável.
O que os dados revelam
A relação dívida/PIB brasileira ultrapassou 62% em 2024, acima do pico da pandemia. Projeções do Tesouro apontam para 65% até o final de 2025 se não houver ajuste fiscal estrutural. Paralelamente, a inadimplência das pessoas físicas atingiu 9,2% em dezembro — o maior nível desde 2017. Essa combinação não é coincidência: juros mais altos destroem a capacidade de pagamento das famílias, reduzem o consumo (que representa 65% do PIB) e comprimem a arrecadação.
O dólar a R$ 5,01 amplifica o problema. Parte da dívida pública é indexada ao câmbio, e a desvalorização do real aumenta o passivo em reais. O Banco Central enfrenta uma escolha impossível: elevar ainda mais a Selic para defender o real (e piorar a inadimplência) ou aceitar a depreciação (e ver a dívida em dólares crescer em termos nominais).
Historicamente, quando a inadimplência ultrapassa 9%, o crédito pessoal encolhe 15% a 20% no ano seguinte. Estamos nesse ponto crítico.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Bancos sofrem com redução de margem (juros altos comprimem spread) e provisões maiores para inadimplência. Ações de varejo e consumo discreto estão vulneráveis — consumidor endividado não compra. O Ibovespa a 176.209 pontos reflete essa realidade: ganhos em commodities (petróleo WTI a US$ 112,25) compensam perdas no consumo doméstico.
Renda fixa: A curva de juros precifica uma Selic elevada por mais tempo. Títulos prefixados de longo prazo oferecem rendimento atrativo (acima de 12% a.a.), mas carregam risco de duration se o BC for forçado a cortar juros abruptamente em caso de recessão. Títulos indexados à inflação (IPCA+) são mais seguros neste cenário.
Câmbio: O real permanece sob pressão. Enquanto a Selic não cair significativamente, o carry trade (tomar emprestado em dólar barato e aplicar em Selic alta) atrai capital, mas inadimplência crescente reduz a confiança no crédito brasileiro.
O que monitorar
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Dados de inadimplência do mês seguinte — se ultrapassar 9,5%, sinalizará que o aperto já está quebrando o consumidor. Isso forçaria o BC a considerar cortes de Selic mais cedo.
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Resultado primário do Tesouro — a próxima reunião do Copom ocorrerá com foco total em sustentabilidade fiscal. Sem sinais de ajuste estrutural, a Selic permanece em patamar elevado.
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Comportamento do dólar nas próximas semanas — se o real depreciar além de R$ 5,10, o custo da dívida em moeda estrangeira explode, forçando ação do BC.
O mercado está precificando corretamente: não há saída fácil. Ou o governo faz ajuste fiscal (improvável no curto prazo) ou a Selic fica alta por mais tempo, aprofundando a inadimplência. Investidores devem se posicionar para volatilidade estrutural, não para resolução rápida.
