A inadimplência das pessoas físicas atingiu a marca de 7,63%, escancarando o estrangulamento da capacidade de pagamento das famílias em um ambiente prolongado de Selic a 14,00% ao ano. O dado não é apenas um indicador social, mas um termômetro direto da deterioração do crédito de consumo que começa a cobrar seu preço nos balanços das instituições financeiras.
Com a taxa básica no patamar atual, o custo de carregamento das dívidas de curto prazo — como cartão de crédito e cheque especial — tornou-se insustentável. A aceleração do não pagamento evidencia que as provisões para devedores duvidosos (PDD) dos grandes bancos terão de ser revisadas para cima, pressionando as margens financeiras no encerramento do trimestre.
O que os dados revelam
O avanço do calote para 7,63% sinaliza que a gordura acumulada pela poupança das famílias no pós-pandemia se esgotou por completo. A última vez em que o sistema financeiro registrou um estresse dessa magnitude na carteira não consignada, o Banco Central viu-se forçado a endurecer os requisitos de capital para linhas de alto risco.
O movimento atual reflete a transmissão defasada da política monetária restritiva. Enquanto a taxa Selic permanece estacionada em 14,00%, o juro médio ponta a ponta na carteira livre ultrapassa a casa dos dois dígitos elevados, gerando um efeito bola de neve. O crédito imobiliário e o consignado continuam performando com estabilidade relativa, mas as carteiras de consumo puro e veículos já mostram sinais claros de exaustão.
Impacto por classe de ativo
No mercado de renda variável, o setor bancário passa a operar sob volatilidade seletiva. Instituições com maior exposição ao varejo de baixa renda e ao crédito desgarantido sofrem maior pressão nas cotações, enquanto bancos com carteira concentrada em corporativo e alta renda mantêm resiliência. O setor de varejo alimentício e de bens duráveis também sente o baque, dada a retração direta do poder de compra e da concessão de novos limites.
Na renda fixa, o spread dos títulos privados emissão bancária (CDBs e LF) tende a alargar para os emissores de médio porte. Investidores exigirão maior prêmio de risco para financiar carteiras de crédito pessoal em fase de deterioração. Nos DI futuros, o dado reforça a tese de manutenção dos juros elevados por tempo prolongado para conter os efeitos secundários da inflação de serviços.
No câmbio, o impacto ocorre de forma indireta: a desaceleração do consumo interno reduz a demanda por importações, mitigando parcialmente a pressão de depreciação sobre o real, que opera próximo do patamar de R$ 5,20.
O que monitorar
Para as próximas semanas, a atenção do mercado se volta para a publicação do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central e a apresentação dos balanços trimestrais dos quatro maiores bancos de capital aberto do país.
Os gatilhos decisivos incluem o comportamento do índice de cobertura das provisões bancárias, a evolução das concessões de crédito livre e os eventuais sinais de aperto adicional nas exigências prudenciais por parte da autoridade monetária até a próxima reunião do Copom.
