A comparação entre a inflação atual e os picos de 2021-2022 é sedutora, mas imprecisa. Sim, os números parecem alarmantes em isolado. Mas o arcabouço de contenção mudou radicalmente: a Selic em 14,50% a.a., o dólar em R$ 4,9886 e um Ibovespa resiliente em 187.318 pontos criam um tripé de defesa que não existia há três anos. O mercado não está precificando reaceleração inflacionária — está precificando desinflação lenta com piso elevado.
Em 2021-2022, a inflação disparou em contexto de Selic em queda (o BC cortava juros enquanto a inflação subia). Hoje, o movimento é oposto: juros estruturalmente altos e câmbio depreciado funcionam como freios automáticos. O real fraco encarece importações, mas também reduz demanda por bens externos e pressiona consumo doméstico. A Selic de 14,5% já eliminou qualquer apetite por crédito especulativo.
O que os dados revelam
A inflação atual reflete choques de oferta pontuais — energia, alimentos, câmbio — não demanda excessiva como em 2021. O diferencial de juros Brasil-EUA (Selic 14,5% vs. Fed Funds ~4,5%) atrai capital estrangeiro e sustenta o real em patamares que, embora depreciados, não alimentam espiral inflacionária. Quando a Selic estava em 2% em 2021, o real caía sem freio e a inflação acelerava. Hoje, a taxa real de juros (Selic menos inflação esperada) permanece positiva e elevada.
O VIX global em 16,9 — moderado — indica que o mercado internacional não vê risco sistêmico. Se houvesse expectativa de inflação descontrolada no Brasil, o prêmio de risco sobre títulos brasileiros seria muito maior. Não é. O Bitcoin em US$ 78.370 (+0,3%) e o petróleo WTI em US$ 99,89 também não sinalizam pressão inflacionária global que justifique comparação com 2021-2022.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: O Ibovespa resiste porque a Selic elevada não é vista como permanente. O mercado precifica cortes de juros a partir de meados de 2025, o que tornaria a desinflação mais rápida. Setores defensivos (utilities, consumo essencial) ganham com Selic alta; cíclicos (bancos, varejo) apostam em normalização.
Renda fixa: A curva de juros já incorpora o cenário de desinflação lenta. Títulos prefixados longos oferecem prêmio atrativo porque o mercado não acredita em inflação estrutural acima de 4% a.a. no médio prazo. Quem compra NTN-B (indexada à inflação) está apostando contra o consenso.
Câmbio: O dólar em R$ 4,99 é forte, mas não reflete pânico inflacionário brasileiro — reflete diferencial de juros e fluxos de capital. Se a inflação acelerasse de verdade, o dólar estaria acima de R$ 5,20.
O que monitorar
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IPCA de janeiro (divulgação em 10 de fevereiro): se vier acima de 0,7% a.m., o mercado revisa expectativas de desinflação para cima e pressiona o real.
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Decisão do Copom em 4-5 de fevereiro: qualquer sinalização de manutenção da Selic por mais tempo que o esperado reforça o cenário de desinflação lenta e sustenta ativos brasileiros.
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Fluxo de capital estrangeiro: o diferencial de juros Brasil-EUA é o âncora. Se o Fed sinalizar cortes mais agressivos que o esperado, o carry trade enfraquece e o real sofre pressão real.