A inflação de junho interrompe a trajetória de desaceleração que o mercado vinha precificando e recoloca a inflação de médio prazo no topo das preocupações do Banco Central. O resultado, acima do esperado pelos analistas, força uma reavaliação das probabilidades de corte de juros este ano e alonga o horizonte de normalização monetária.
A Selic segue em 14,25% ao ano — um piso que deixa de parecer temporário. O que antes era lido como uma pausa tática no ciclo de apertos agora ganha contornos de permanência, ao menos até a próxima reunião do Copom, quando novas projeções de inflação chegarão à mesa de decisão.
O que os dados revelam
O resultado de junho frustra as apostas de desinflação progressiva que dominavam o discurso de BC e mercado há dois meses. A pressão não vem apenas de choques pontuais — o núcleo de inflação permanece pegajoso, revelando uma dinâmica de custos ainda desancoradora.
Esse movimento reflete, fundamentalmente, a inércia de reajustes contratuais e a demanda ainda aquecida em segmentos sensíveis. Não é uma surpresa isolada: repetindo o padrão dos últimos trimestres, a inflação mensal persiste acima do consenso dos economistas.
Comparado com junho de 2023, quando a inflação começava sua trajetória descendente, agora o mercado enfrenta um cenário mais complexo: a queda de juros globais oferece alívio cambial limitado (o dólar mantém-se em 5,07), enquanto pressões internas — energia, transportes, alimentos — seguem presentes.
Impacto por classe de ativo
Renda fixa sofre o principal impacto. As expectativas de queda da Selic foram para trás: operadores agora precificam manutenção da taxa até o final do primeiro trimestre de 2025, com cortes possíveis apenas se a inflação ceder consistentemente. A curva de juros futuros se reprecificou para cima em prazos curtos — títulos de até dois anos refletem essa rigidez.
Renda variável absorve o choque com cautela. O Ibovespa em 177.999 pontos carrega o peso de uma Selic persistentemente elevada, que penaliza especialmente financeiras e ações de crescimento. Setores defensivos — utilities, consumo básico — mantêm relativo isolamento.
O câmbio oferece pouca compensação: a manutenção de juros altos sustenta a taxa de carry trade, mas a falta de perspectiva de cortes rápidos limita o impulso de valorização do real. Operações de carry — que capturam o diferencial entre juros brasileiro e internacional — seguem viáveis, mas menos atrativas do que há um mês.
O que monitorar
Os próximos 20 dias definem o cenário. Três variáveis são críticas: (1) o comportamento da inflação de julho, que sairá antes da próxima reunião do Copom — qualquer indicador antecedente de persistência pressiona para aperto adicional; (2) o comportamento do dólar, que sinalizará se o carry trade permanece rentável o suficiente para sustentar demanda por ativos em reais; (3) a comunicação do Banco Central sobre suas expectativas para inflação de médio prazo, que chegará junto com o relatório de inflação.
Se a inflação de julho surpreender novamente para cima, apostas em Selic acima de 14,5% ganham credibilidade. Se ceder, pode haver alívio na renda fixa. Por enquanto, a tendência indica uma Selic mais persistente do que o mercado esperava há três meses.
