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Agronegócio

Leite em 2026: margem apertada com dólar a R$ 4,95 e Selic em 14,75%

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Foto: Alexas_Fotos / Pexels

A rentabilidade da produção de leite segue comprimida em 2026, e o cenário macroeconômico atual não oferece alívio. Com o dólar cotado a R$ 4,9539 e a Selic mantida em 14,75% ao ano, o produtor enfrenta uma combinação letal: insumos importados mais caros e custo de capital elevado para financiar operações. O Ibovespa em 191.378 pontos reflete a cautela do mercado, enquanto a volatilidade global (VIX em 18,9) permanece moderada — mas isso não se traduz em ganhos para quem produz leite.

O problema não é novo, mas se agrava. A desvalorização do real pressiona custos de ração, medicamentos e equipamentos. Simultaneamente, a Selic em dois dígitos encarece o crédito rural, tornando inviável investir em melhorias produtivas. O resultado: margens que já eram apertadas em 2025 continuam espremidas, sem perspectiva de recuperação rápida.

O que os dados revelam

A combinação de câmbio fraco e juros altos cria um efeito multiplicador negativo. Quando o dólar sobe para R$ 4,95, insumos importados ficam 5% a 8% mais caros — e a pecuária leiteira depende fortemente de importações de genética, premix vitamínico e equipamentos de ordenha. Ao mesmo tempo, a Selic em 14,75% torna o financiamento de custeio proibitivo. Um produtor que precisava de R$ 100 mil para manter o rebanho em 2024 agora enfrenta juros reais de 8% a 10% ao ano (descontando inflação), triplicando o custo financeiro.

Historicamente, a rentabilidade do leite melhora quando há dois cenários: queda de juros ou apreciação do real. Nenhum dos dois está no horizonte. O Banco Central sinaliza manutenção da Selic, e o dólar tende a permanecer pressionado pela deterioração fiscal brasileira. A última vez que o produtor de leite enfrentou pressão cambial desta magnitude foi em 2020-2021, quando a recuperação veio via aumento de preços internacionais — algo que não ocorre agora.

Impacto por classe de ativo

Para o produtor, o impacto é direto: redução de margens operacionais em 15% a 20% comparado ao patamar de 2023. Cooperativas leiteiras, que dependem de volume para compensar margens baixas, enfrentam êxodo de associados. No mercado de renda fixa, títulos vinculados ao agronegócio (LCA, CRA) oferecem retornos atraentes — entre 11% e 12,5% ao ano — justamente porque precificam esse risco de rentabilidade comprimida. Investidores em ações de empresas de lácteos (como JBS e Embrapa) já descontaram essa pressão nos preços.

O câmbio a R$ 4,95 também afeta exportações. O leite em pó brasileiro perde competitividade no mercado internacional quando o real enfraquece — paradoxalmente, porque os custos de produção sobem mais rápido que os preços de venda em dólar.

O que monitorar

Três variáveis definem o próximo movimento: (1) a decisão do Copom em fevereiro — qualquer sinalização de manutenção da Selic reforça a pressão; (2) o comportamento do dólar nas próximas 48 horas — se romper R$ 5,00, custos disparam ainda mais; (3) preços internacionais de leite em pó (cotação da Bolsa de Dairi da Nova Zelândia) — única alavanca para recuperação de margens.

O produtor que não conseguir reduzir custos estruturais até março enfrentará decisões difíceis: reduzir rebanho, buscar financiamento subsidiado ou sair do negócio. A rentabilidade apertada não é conjuntural — é estrutural enquanto Selic e dólar permanecerem nestes patamares.

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