Mineradoras e empresas de celulose enfrentam uma combinação letal: dólar a R$ 4,9653, Selic em 14,75% a.a. e demanda global em desaceleração. O resultado é prejuízo operacional em empresas que dependem de receitas em dólares mas carregam custos crescentes em reais. Enquanto o Ibovespa tenta sustentar 192.889 pontos, os papéis desses setores descolam para baixo.
A tensão é clara: quanto mais forte o dólar, maior o lucro em conversão. Mas isso não está acontecendo. A razão reside nos preços das commodities — minério de ferro, celulose e ouro operam em patamares que não compensam a desvalorização do real e a pressão de custos domésticos.
O que os dados revelam
O dólar a R$ 4,97 deveria beneficiar exportadores. Na prática, não. Empresas mineradoras vendem em dólares, mas seus custos de energia, logística e folha de pagamento sobem em reais. Com a Selic em 14,75%, o custo do capital para financiar operações também dispara. O efeito líquido é negativo.
O VIX global em 19,5 (moderado) não explica a queda. O problema é estrutural: os preços internacionais de minério e celulose caíram mais do que o real se desvalorizou. Mineradoras que operavam com margem de 30% agora veem esse número cair para 15-20%. Celulose, que exporta 80% da produção, sofre ainda mais com a demanda fraca da China e Europa.
A correlação com o petróleo (WTI a US$ 91,06) também é reveladora. Quando o barril cai, sinaliza desaceleração econômica global — exatamente o que reduz demanda por minério e celulose. Bitcoin recuando 1,1% para US$ 77.468 reforça o sentimento de aversão ao risco em ativos cíclicos.
Impacto por classe de ativo
Renda variável sofre concentração. Vale, Suzano e Klabin — as três maiores — respondiam por 12% do Ibovespa até semana passada. Com prejuízos operacionais, elas arrastam o índice. Setores defensivos (utilities, varejo) ganham espaço relativo.
Renda fixa se beneficia. Títulos pré-fixados ganham com a queda de ações cíclicas, que reduz pressão inflacionária futura. A curva de juros fica mais plana: mercado precifica corte de Selic em 2025, não em 2024.
Câmbio permanece pressionado. Sem fluxo de dólares de exportadores rentáveis, o real não encontra suporte. A tendência é de enfraquecimento gradual rumo a R$ 5,10-5,15 nos próximos meses.
O que monitorar
Primeiro: preços de minério de ferro na China. Se a demanda não se recuperar, mineradoras continuam queimando caixa. Segundo: decisão do Copom em dezembro. Qualquer sinalização de corte de Selic muda o jogo — reduz custo de capital e torna exportadores mais competitivos. Terceiro: cotação do dólar. Acima de R$ 5,00, o impacto em margens fica insustentável mesmo com recuperação de preços.
Nas próximas 48 horas, dados de PMI industrial chinês serão críticos. Qualquer sinalizador de contração reforça a tese de que mineração e celulose seguem em compressão de margens. Até a decisão do Copom, espera-se volatilidade em papéis cíclicos.
