A safra 2024/25 enfrenta um cenário de compressão de margens que não é apenas conjuntural. O dólar cotado a R$ 5,03 reduz o poder de compra do produtor em reais, enquanto a Selic mantida em 14,5% a.a. encarece o financiamento de custeio e investimento. Simultaneamente, a volatilidade climática segue como fator de risco estrutural — não há previsibilidade total sobre produtividade e qualidade das lavouras nos próximos meses.
Essa tripla pressão (câmbio, custo de capital e clima) não é novidade isolada. O que muda agora é a simultaneidade. Quando o dólar sobe, historicamente o produtor consegue compensar com preços internacionais mais altos em reais. Quando a Selic recua, o financiamento fica mais acessível. Mas quando ambos ocorrem juntos — dólar elevado E juros altos — a margem operacional encolhe de verdade.
O que os dados revelam
O dólar a R$ 5,03 representa uma desvalorização do real que, em tese, beneficiaria exportadores agrícolas. Porém, esse ganho é neutralizado pela Selic em 14,5%, que pressiona o custo de capital de giro. Um produtor que financia safra a essa taxa paga juros reais (nominais menos inflação) ainda elevados, reduzindo a competitividade mesmo com câmbio favorável.
A comparação é direta: em 2021, quando a Selic estava em 2% a.a. e o dólar em torno de R$ 5,20, o produtor tinha custo de financiamento muito menor apesar de câmbio similar. Hoje, com juros sete vezes mais altos, a equação muda completamente. O spread bancário para operações agrícolas continua entre 4% e 6%, o que coloca o custo total de crédito rural acima de 20% a.a. em muitos casos.
Os preços das commodities no CBOT refletem essa dinâmica global. A soja negocia sob pressão de safra recorde nos EUA; o milho segue volátil por questões de oferta global. Para o produtor brasileiro, isso significa que mesmo com dólar elevado, os preços em dólares podem não compensar o custo de produção em reais.
Impacto por classe de ativo agrícola
A rentabilidade diferencia-se por cultura e modelo de negócio. Produtores de soja com contratos futuros já fechados em preços acima de R$ 60 por saca têm proteção relativa. Aqueles que ainda vendem spot (à vista) enfrentam risco de preço em queda, especialmente se a safra americana vier maior que o esperado.
No milho, a volatilidade é maior. Produtores de segunda safra (safrinha) têm janela de plantio crítica agora — decisões sobre área devem considerar não apenas preço futuro, mas custo de financiamento. Com Selic em 14,5%, a taxa interna de retorno (TIR) do milho safrinha precisa estar acima de 15% para justificar o investimento, o que é desafiador em cenários de preço moderado.
Pecuária de corte também sente o aperto. O boi gordo negocia pressionado por oferta maior no mercado spot, enquanto o custo de alimentação (milho e farelo) permanece elevado. Margens de confinamento encolhem.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos passos: (1) a decisão do Copom na próxima reunião — qualquer sinalização de corte de juros muda o cálculo de financiamento; (2) os preços do CBOT para soja e milho — quedas adicionais comprimem receita em dólares; (3) as condições de chuva nas principais regiões produtoras brasileiras até março — seca prolongada reduz produtividade e força venda emergencial.
O produtor que não tem contrato futuro fechado enfrenta decisão tática urgente: vender parte da produção esperada agora, mesmo com preços moderados, para reduzir risco de queda? Ou aguardar, apostando em recuperação de preços? Com Selic alta, o custo de espera é real — cada mês de financiamento custa caro.