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Macroeconomia Brasil

Safra recorde não salva renda do produtor: o paradoxo dos preços

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Foto: moritz320 / Pexels

A safrinha brasileira enfrenta um paradoxo que resume a fragilidade do produtor rural: colheitas recordes não se traduzem em renda maior. Enquanto a produtividade bate máximas históricas, os preços recuam, esmagando as margens. O petróleo WTI a US$ 84,65 reflete pressão global sobre commodities, e essa dinâmica contamina toda a cadeia agrícola.

O fenômeno não é novo, mas sua intensidade agora é preocupante. Quando a oferta cresce sem correspondência na demanda, o preço cai mais rápido que a quantidade sobe. O produtor que investiu em tecnologia, sementes e insumos esperava compensar custos maiores com volume. Não aconteceu.

O que os dados revelam

A produtividade da safrinha cresceu entre 8% e 12% em relação ao ciclo anterior, dependendo da cultura. Milho e soja lideraram esse avanço. Simultaneamente, os preços recuaram 15% a 22% no mesmo período. A conta é simples: ganho de volume não cobre a perda de preço.

Esse movimento reflete oferta global abundante. China reduziu compras de soja brasileira, Argentina aumentou exportações de milho, e os EUA mantêm produção robusta. O Brasil, apesar de recordista em produtividade, compete em um mercado saturado. A margem bruta do produtor encolhe, não por ineficiência, mas por dinâmica de mercado.

O custo de produção permanece elevado. Fertilizantes, diesel e sementes não caíram na mesma proporção dos preços finais. Um produtor que colheu 60 sacas por hectare em vez de 55 pode ter perdido renda líquida se o preço caiu de R$ 85 para R$ 68 por saca.

Impacto por classe de ativo

A renda variável agrícola sofre pressão direta. Ações de empresas de insumos e máquinas agrícolas já precificam redução de demanda para a próxima safra. O crédito rural, que deveria expandir, encontra produtores com fluxo de caixa apertado. Bancos reduzem exposição ao setor.

Na renda fixa, títulos de empresas agrícolas com dívida em dólar enfrentam pressão cambial. O dólar a R$ 5,1743 torna mais caro o serviço da dívida externa. Produtores que captaram em moeda estrangeira veem custos financeiros explodir.

O câmbio também afeta a competitividade. Um real mais fraco ajudaria a exportação, mas não resolve o problema de preços globais deprimidos. A dinâmica atual não favorece nem o produtor nem o exportador.

O que monitorar

Três variáveis definem os próximos passos: (1) preços de commodities nas próximas semanas — qualquer recuperação acima de 5% muda o cenário; (2) taxa de câmbio — movimentos acima de R$ 5,30 amplificam perdas de quem tem dívida em dólar; (3) decisões de crédito rural no próximo ciclo — redução de oferta de crédito sinalizaria que bancos veem risco elevado.

O Copom, ao manter a Selic em 14,25% a.a., mantém custo de capital elevado. Produtor com dívida em reais paga juros altos justamente quando a renda cai. Esse aperto financeiro pode forçar venda de terras ou redução de investimento na próxima safra.

A próxima reunião do Copom será crítica. Qualquer sinalização de manutenção de juros altos por mais tempo agrava a situação. Produtores precisam de alívio financeiro, não de aperto.

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