A Hedgepoint projeta safra de soja de 181 milhões de toneladas para 2025/26, um recorde histórico. O número é robusto: representa crescimento de 3,4% ante a safra 2024/25 (175 mi t estimadas). Mas o produtor que comemora volume enfrenta uma realidade incômoda no câmbio.
O dólar cotado a R$ 4,92 nesta manhã comprime margens. Enquanto a soja em Chicago (CBOT) flutua sob pressão de oferta global, o real fraco reduz o poder de compra do produtor brasileiro em insumos importados. A Selic em 14,5% a.a. amplifica o custo de capital para quem financia safra. É o clássico dilema: safra grande, mas preço e custo trabalham contra.
O que os dados revelam
O recorde de 181 milhões de toneladas reflete expansão de área e produtividade. Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Goiás puxam o crescimento. Mas a projeção global de oferta maior (EUA, Argentina, Paraguai também colhem bem) pressiona cotações internacionais.
O dólar a R$ 4,92 é o ponto crítico. Quando a moeda americana sobe, o produtor recebe menos real por saca exportada. Simultaneamente, fertilizantes, defensivos e peças de máquina importadas ficam mais caros. A Selic de 14,5% agrava: financiamentos de custeio custam mais caro, reduzindo a rentabilidade líquida.
Cruze os números: um produtor que colheu 60 sacas/hectare em 2024 com dólar a R$ 4,50 e Selic a 13% enfrenta agora custo de capital 12% maior e câmbio 9% mais apreciado. O volume cresce, mas o lucro não acompanha na mesma proporção.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Empresas de insumos (Mosaic, Yara, Corteva) ganham com volume de safra, mas perdem com dólar forte (reduz demanda de importados). Traders de soja (Bunge, Cargill, ADM) lucram com spread de exportação, mas enfrentam pressão de preço global. O Ibovespa a 186.754 pontos reflete esse equilíbrio tenso.
Renda fixa: A Selic de 14,5% mantém títulos prefixados atraentes. Produtor que trava taxa de financiamento agora protege-se contra novos aumentos. Mercado precifica mais um corte do Copom apenas em 2026.
Câmbio: O dólar forte beneficia exportadores, mas reduz competitividade de quem precisa importar. Produtor que não fez hedge em dólar em 2024 está exposto.
O que monitorar
Próximas 48 horas: Relatório USDA de safra americana (esperado para 12 de janeiro). Se EUA reduzir estimativa, soja sobe em Chicago e alivia pressão de preço global.
Até o Copom (19 de janeiro): Decisão sobre Selic. Mercado precifica corte de 50 bps em fevereiro. Se Copom surpreender com pausa, Selic sobe e custo de capital do produtor piora.
Câmbio: Monitorar se dólar rompe R$ 5,00. Acima disso, margens de produtor que não hedgeou ficam críticas. Banco Central pode intervir se volatilidade disparar.