A próxima safra de soja deve trazer alívio de volume, mas o cenário não é tão simples quanto parece. Enquanto estimativas apontam para produção maior — resultado de expansão de área e recuperação de produtividade — o dólar a R$ 5,10 joga uma sombra sobre as margens do produtor. A combinação cria uma situação que resumo assim: mais toneladas, mas menos reais por tonelada.
Este é o paradoxo que define o mercado de soja agora. A produção crescente deveria significar receita maior. Não é o que as contas mostram quando a moeda americana não cede.
O que os números revelam
A safra 2024/25 sinaliza expansão em relação ao ciclo anterior, com recuperação em estados como Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Produtividade volta a patamares normais após estiagem que marcou 2023. Isso alimenta otimismo nas mesas de operação — mais soja exportável significa maior receita em divisas para o Brasil.
O problema mora no detalhe: soja é commodity em dólar. Quando o real enfraquece, o preço em reais sobe automaticamente, mas o produtor não consegue repassar esse ganho cambial ao mercado internacional. Ele recebe em dólar, e quanto mais fraco o real, menos reais ele converte.
O dólar a R$ 5,10 não é acidental. Reflete expectativa de manutenção de taxa de juros elevada — a Selic segue em 14,25% a.a. — e carry trade enfraquecido. Para o agronegócio, isso significa que a rentabilidade líquida do produtor fica pressionada, mesmo com volume maior.
Impacto na renda variável
As ações de empresas ligadas ao agronegócio — traders, fertilizantes, máquinas agrícolas — já precificam essa dinâmica. O Ibovespa em 177.895 pontos reflete um mercado que desconta tanto o otimismo da safra maior quanto as incertezas cambiais. Setores mais expostos a commodity tendem a sofrer quando o dólar não retrocede em paralelo ao crescimento de volumes.
Para o produtor, a equação é: produção 5% maior, mas com margem 3-4% menor por unidade. No agregado, o resultado é positivo, mas longe do otimismo que alguns sinalizam. Quem planta soja de olho em fluxo de caixa já sente esse aperto.
As cooperativas que financiam insumos também enfrentam pressão. O aumento de custos em dólar não é compensado proporcionalmente pelo aumento de receita em reais. É um cenário que favorece quem tem dívida em reais e receita em dólar, mas prejudica quem tem a estrutura invertida.
O que monitorar
Três variáveis controlam o próximo movimento: (1) comportamento do dólar nas próximas sessões — se recua para R$ 4,95 ou segue em R$ 5,15, a margem do produtor muda significativamente; (2) decisão do Banco Central nas próximas semanas sobre o ritmo de alta de juros — se SELIC vai além de 14,25%, pressiona ainda mais o dólar; (3) preços internacionais de soja — se Chicago cair enquanto o real enfraquece, o duplo movimento liquida ganhos de volume.
A safra maior é um fato. A rentabilidade dela, uma incógnita que o mercado ainda está precificando.