A soja global enfrenta um paradoxo que desmente a lógica simples da oferta e procura. Apesar de perspectivas de safra recorde em 2024/25, os preços não desabam como a teoria econômica tradicional sugeriria. O suporte vem de dois flancos: custos de produção elevados e uma demanda asiática que segue firme, mesmo com a desaceleração econômica na China.
Este cenário importa para o Brasil porque o país responde por um terço da soja comercializada globalmente. Com o dólar em 4,92 reais e o Ibovespa em 185 mil pontos, o agronegócio segue como âncora de rentabilidade para a economia doméstica. A questão não é mais se os preços caem, mas quanto tempo essa sustentação dura.
O que os dados revelam
Os custos de produção nos EUA e Brasil permanecem pressionados. Fertilizantes, diesel e mão de obra não recuaram na mesma velocidade que a oferta aumentou. Isso cria um piso de preço: produtores não vendem abaixo do custo total, mesmo com estoques crescentes. Simultaneamente, a China segue importando soja em volumes robustos, apesar do crescimento econômico mais lento. A demanda por farelo para ração animal e óleo para alimentos processados não desapareceu.
O cruzamento desses fatores explica por que o complexo da soja (grão, farelo e óleo) mantém cotações acima dos patamares de 2020-2021. A última vez que oferta recorde não derrubou preços foi em 2016, quando custos também estavam elevados e a demanda chinesa absorvia volumes crescentes. O paralelo é relevante: naquela ocasião, os preços caíram apenas 15-20% em vez dos 40-50% que a teoria sugeriria.
Impacto por classe de ativo
Para renda variável, as empresas de agronegócio listadas na B3 ganham com essa dinâmica. Exportadoras como Cosan e Amaggi operam com margens protegidas pelo câmbio favorável (dólar acima de 4,90) e preços internacionais que não desabam. As tradings ganham volume sem sofrer compressão de margem. Já os produtores rurais, especialmente os pequenos, enfrentam dilema: colhem em volume maior, mas com custos que não caem proporcionalmente.
Na renda fixa, a sustentação dos preços agrícolas reduz pressão inflacionária sobre alimentos, o que beneficia a Selic em 14,50% a.a. Um cenário de crash de preços forçaria o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo. Aqui, a estabilidade agrícola é aliada da política monetária.
No câmbio, a soja sustentada em dólares altos reduz a necessidade de desvalorização do real. O fluxo de dólares das exportações agrícolas funciona como amortecedor contra volatilidade cambial.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos. Primeira: os custos de produção nos EUA na próxima safra (verão americano começa em maio). Se recuarem, o piso de preço cai. Segunda: a demanda chinesa por importações de soja nos próximos 60 dias. Qualquer sinal de desaceleração quebra o suporte. Terceira: o dólar. Se o real se fortalecer acima de 4,80, a competitividade das exportações brasileiras melhora, mas a receita em reais cai — um trade-off que afeta rentabilidade.
Até a próxima decisão do Copom em janeiro, a soja segue como variável de conforto para o agronegócio brasileiro. Mas esse conforto é temporário.
