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Mercados e Bolsa

Tech sofre com juros altos: o que explica a pressão nos ganhos

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Aerial shot of São Paulo cityscape showcasing dense urban architecture and a green park.
Foto: Sérgio Souza / Pexels

O setor tecnológico brasileiro enfrenta ventos contrários estruturais. A combinação de juros reais elevados — a Selic em 14,50% a.a. — com rendimentos de renda fixa atraentes reduz o apelo relativo de ações de crescimento, que dependem de fluxos de caixa futuros descontados a taxas maiores. O movimento não é novo, mas ganha força conforme o custo do capital permanece alto.

Esta é a dinâmica clássica que penaliza setores com múltiplos de valuation expandidos. Quando a taxa de juros sobe, o denominador da fórmula de desconto de fluxos cresce, comprimindo o valor presente dos ganhos futuros. Para empresas de tech, que prometem crescimento acelerado mas lucro concentrado em anos posteriores, o impacto é desproporcional.

O que os dados revelam

A pressão nos rendimentos reflete uma realidade macroeconômica: o Banco Central mantém a Selic em patamar restritivo para controlar a inflação. Isso torna títulos públicos — especialmente os de curto prazo — competitivos demais para quem busca retorno. Um investidor que consegue 14,50% a.a. em um título do Tesouro com risco zero não precisa arriscar em ações de tech que oferecem incerteza de crescimento.

O efeito cascata é imediato: fundos de ações reduzem exposição em setores de crescimento, migrando para defensivos ou renda fixa. Ações de software, e-commerce e fintechs — segmentos que dominam o índice de tech brasileiro — sofrem saídas de capital. A volatilidade aumenta, e os múltiplos contraem.

Historicamente, esse cenário se repete sempre que o diferencial entre a taxa de juros real e o retorno esperado de ações cresce. A última vez que vimos pressão similar foi em 2022-2023, quando o Copom acelerou o ciclo de alta de juros.

Impacto por classe de ativo

Em renda variável, o setor de tecnologia é o mais exposto. Empresas como as de serviços digitais e plataformas de pagamento — que negociam com múltiplos de 20x a 30x o EBITDA — sofrem mais do que bancos tradicionais ou empresas de commodities, que operam com múltiplos de 5x a 8x.

Em renda fixa, o cenário é oposto: a curva de juros se beneficia. Títulos prefixados de médio e longo prazo ganham atratividade relativa. Investidores realocam portfólios para aproveitar o carry trade — tomar emprestado em taxa flutuante (mais baixa) e aplicar em taxa prefixada (mais alta).

No câmbio, a dinâmica é mais sutil. O dólar a R$ 5,12 reflete equilíbrio entre fluxos de carry trade (que atraem capital externo) e saídas de investimento em ações brasileiras (que demandam dólares para remessa). Por enquanto, o carry vence, mas qualquer aceleração de saídas de equity pode pressionar o real.

O que monitorar

Três variáveis definem os próximos movimentos:

1. Decisão do Copom nas próximas semanas. Se o BC sinalizar pausa ou corte de juros, o atrativo relativo de renda fixa cai e tech respira. Se mantiver ou acelerar, a pressão persiste.

2. Fluxo de capital estrangeiro. Acompanhe os dados de investimento direto e em carteira. Saídas aceleradas de equity sinalizam que investidores globais estão precificando risco Brasil como elevado.

3. Earnings de empresas de tech. Resultados fracos confirmam que o crescimento desacelerou, justificando múltiplos menores. Resultados fortes podem reverter o pessimismo.

O setor não desaba, mas opera sob pressão estrutural enquanto juros reais permanecerem altos. Investidores devem diferenciar entre queda de valuation (risco real) e oportunidade de compra em preços deprimidos (depende do horizonte).

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