Os preços do trigo no Brasil subiram 8% nas últimas duas semanas, refletindo a queda de 12% na safra global projetada para este ano. A pressão vem principalmente da redução de estoques na Europa e da seca que afeta regiões produtoras nos EUA e Canadá. O movimento coloca o cereal em patamar não visto desde maio de 2023, quando crises climáticas similares pressionaram commodities.
O impacto é direto: o trigo responde por 35% do custo de produção do pão no Brasil. Com a alta acelerada, padarias já sinalizam reajustes de 5% a 7% nos próximos 30 dias. Redes de supermercados também começam a repassar aumentos para biscoitos, massas e produtos de panificação industrial.
O que os dados revelam
A queda na safra global não é marginal. A produção deve cair de 780 milhões de toneladas (2023) para 685 milhões de toneladas em 2024 — a maior contração em sete anos. Austrália, Argentina e Rússia, que juntas respondem por 40% da oferta mundial, enfrentam estiagem severa.
No Brasil, a situação é mais nuançada. A safra doméstica cresceu 3,2% em relação ao ano anterior, chegando a 9,2 milhões de toneladas. Mas o país importa 40% do trigo que consome — principalmente da Argentina. Com Buenos Aires enfrentando seca histórica, os preços de importação subiram 15% em dólar, amplificando a pressão cambial. O dólar em 5,12 reais intensifica esse efeito.
O movimento não é especulativo. Fundos de investimento aumentaram posições compradas em trigo em 22% nas últimas três semanas, sinalizando que veem a alta como estrutural, não cíclica.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: ações de empresas de alimentos processados (BRF, JBS, Marfrig) sofrem pressão imediata com compressão de margens. Varejistas de alimentos (Carrefour, Pão de Açúcar) também enfrentam dilema: repassar aumentos ou absorver custos. O Ibovespa, em 176.717 pontos, reflete essa tensão setorial.
Renda fixa: a pressão inflacionária em alimentos força o mercado a precificar Selic mais elevada por mais tempo. A taxa em 14,25% a.a. já reflete essa expectativa, mas qualquer aceleração da inflação de alimentos pode gerar demanda por aperto adicional.
Câmbio: o dólar forte beneficia exportadores de trigo brasileiro (ganham em reais), mas prejudica importadores que dependem do cereal argentino. O efeito líquido é neutro para o real, mas cria volatilidade setorial.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos:
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Previsão de chuvas na Argentina (próximas 2-3 semanas): qualquer sinal de alívio na estiagem pode desacelerar a alta. Meteorologistas apontam possibilidade de chuvas em fevereiro, o que seria crítico para a safra de inverno.
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Decisão de subsídios nos EUA: o governo americano pode anunciar programas de apoio aos produtores afetados pela seca, o que reduziria pressão de oferta global.
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Dinâmica de inflação de alimentos no Brasil: se o repasse dos preços de trigo acelerar a inflação geral acima de 5% a.a., o Copom pode sinalizar aperto adicional na próxima reunião, impactando toda a curva de juros.
O cenário central aponta para estabilização dos preços de trigo em patamares 12-15% acima dos níveis de um ano atrás. Isso não é crise, mas é inflação estrutural que o mercado de renda fixa já começou a precificar.
