O índice de volatilidade global (VIX) cotado a 19,3 pontos nesta manhã não justifica o alarmismo que ainda circula entre mesas de operação. Esse nível é moderado por padrões históricos — bem abaixo dos 25 pontos que caracterizam mercados realmente assustados. O Ibovespa em 190.745 pontos e o Bitcoin praticamente estável em US$ 77.742 reforçam a ideia de que o apetite por risco não desapareceu. O verdadeiro sinal de alerta, porém, não vem do índice de medo global, mas da cotação do dólar: R$ 5,0083 representa uma pressão cambial que a Selic de 14,75% a.a. não consegue conter sozinha.
A contradição é evidente. Um banco central oferecendo a segunda maior taxa de juros real do mundo desenvolvido deveria atrair capital estrangeiro e depreciar a moeda local. Não está acontecendo. O dólar segue forte apesar da remuneração oferecida, sugerindo que investidores internacionais estão precificando riscos políticos ou fiscais no Brasil que superam o prêmio de juros.
O que os dados revelam
A dinâmica câmbio-juros está desacoplada. Quando a Selic subiu para 14,75%, esperava-se que o real se apreciasse. Em vez disso, o dólar mantém pressão. Isso ocorre porque o carry trade — estratégia de tomar dólar barato no exterior e aplicar em ativos brasileiros — perdeu atratividade. Dois fatores explicam: primeiro, a percepção de que a Selic pode ter chegado ao pico; segundo, a incerteza fiscal que reduz a confiança no ativo brasileiro como destino seguro de capital.
O petróleo WTI a US$ 91,06 oferece algum suporte ao real, já que receitas de exportação ajudam a equilibrar a balança de pagamentos. Mas não é suficiente. A pressão cambial persiste porque o diferencial de juros sozinho não compensa o risco político percebido.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: O Ibovespa resiste, mas empresas com receita em dólar (como bancos e commodities) ganham com a desvalorização do real. Setores domésticos sofrem com custos de importação mais altos. A estabilidade do índice mascara essa rotação interna.
Renda fixa: A curva de juros brasileira precifica corretamente a Selic atual, mas investe em papéis longos exige confiança na trajetória fiscal. Títulos prefixados sofrem se houver sinais de que o Copom manterá juros elevados por mais tempo.
Câmbio: O dólar a R$ 5,00 é o termômetro real do mercado. Enquanto a Selic não conseguir reverter essa tendência, o real seguirá sob pressão. Exportadores comemoram; importadores e devedores em dólar sofrem.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos:
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Próxima decisão do Copom (janeiro): Se o BC sinalizar pausa nos aumentos de juros, o real pode sofrer nova desvalorização. O mercado já precifica essa possibilidade.
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Dados fiscais brasileiros: Qualquer sinal de deterioração nas contas públicas amplifica a fuga de capital. O mercado está atento a gastos e receitas.
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Movimento do dólar global: Se o Federal Reserve manter juros elevados por mais tempo, o dólar segue forte mundialmente, reduzindo a eficácia da Selic como instrumento de atração de capital.
Nas próximas 48 horas, a atenção se volta para dados de inflação nos EUA e qualquer comunicado do Banco Central. O VIX em 19,3 é apenas ruído. O dólar a R$ 5,00 é o sinal que importa.
