O Tesouro Nacional segue distante da meta de resultado primário para 2024, e os números revelam um problema que taxa de juros elevada sozinha não resolve. Com a SELIC em 14,75% ao ano e o dólar cotado a R$ 4,9985, o mercado precifica crescente desconfiança na trajetória fiscal brasileira — exatamente o cenário que força bancos centrais a manter juros altos por mais tempo.
O déficit acumulado no ano sinaliza que o governo não conseguirá atingir a meta estabelecida sem medidas adicionais de contenção de gastos. Isso cria uma armadilha: quanto mais tempo leva para corrigir o desequilíbrio, mais a dívida pública cresce em termos reais, alimentada pelos próprios juros elevados que tentam conter a inflação.
O que os dados revelam
A persistência do déficit primário em patamar elevado contradiz a narrativa de que juros altos sozinhos resolvem o problema de confiança fiscal. O Banco Central mantém a SELIC em 14,75% — o nível mais restritivo da região — justamente porque o mercado exige compensação pelo risco de sustentabilidade da dívida.
O dólar a R$ 4,99 reflete essa dinâmica. Não é apenas pressão externa: é o prêmio de risco fiscal brasileiro. Quando investidores estrangeiros avaliam o real, não veem apenas inflação ou política monetária — veem um governo que gasta mais do que arrecada. A cotação atual já incorpora a expectativa de que a SELIC permanecerá elevada por mais tempo, porque o ajuste fiscal não avança no ritmo necessário.
O Ibovespa a 185.074 pontos mantém-se resiliente, mas essa resiliência mascara uma realidade: empresas brasileiras lucram com juros altos (ganhos financeiros) enquanto a economia real sofre com o custo do crédito. É um equilíbrio frágil.
Impacto por classe de ativo
Renda fixa: A curva de juros precifica cenário de SELIC elevada por mais tempo. Títulos prefixados de longo prazo sofrem pressão porque o mercado não vê redução de juros enquanto o déficit primário não ceder. Quem apostou em queda de juros para 2025 está perdendo.
Renda variável: Setores defensivos (utilidades, consumo essencial) ganham em relação a cíclicos. Bancos lucram com spread, mas empresas industriais e de consumo discricionário enfrentam demanda deprimida pelo crédito caro.
Câmbio: O dólar a R$ 4,99 tende a permanecer elevado enquanto o diferencial de juros não compensar totalmente o risco fiscal. Qualquer sinal de piora no déficit primário pode levar a cotação para R$ 5,05 ou além.
O que monitorar
Três variáveis definem os próximos movimentos:
-
Execução orçamentária de janeiro a março: Se o déficit primário continuar acelerado, o mercado começará a precificar risco de não-cumprimento da meta anual. Isso força o BC a manter SELIC elevada.
-
Próxima reunião do Copom (26 de fevereiro): O comunicado será crucial. Se o BC sinalizar pausa nos cortes de juros (ou até elevação), o real se aprecia e a curva de renda fixa se ajusta para cima.
-
Anúncio de medidas fiscais: Qualquer pacote de contenção de gastos ou aumento de receita que o governo apresente pode reverter parte da pressão sobre o dólar e abrir espaço para redução de juros mais rápida.
O mercado não espera passivamente. Ele precifica hoje o que acredita que acontecerá amanhã. Enquanto o déficit primário não ceder, a SELIC em 14,75% é apenas o piso, não o teto.