A dívida líquida do Brasil atingiu 66,7% do PIB em março — um patamar que expõe a fragilidade da trajetória fiscal mesmo com a taxa Selic em 14,25% ao ano. O número não é apenas um indicador contábil: reflete a incapacidade de o país gerar superávits primários robustos e o custo crescente de financiar o Estado em um ambiente de juros estruturalmente elevados.
O que torna esse dado crítico agora é a contradição que ele revela. Enquanto o Banco Central mantém juros em níveis restritivos para combater a inflação, o governo segue gastando acima de sua receita. Essa combinação não é sustentável. Juros altos aumentam a despesa com juros da dívida, que já consome mais de 6% da receita bruta da União — um círculo vicioso que pressiona ainda mais o resultado fiscal.
O que os dados revelam
O patamar de 66,7% da dívida líquida sobre o PIB não é o maior da série histórica recente, mas a trajetória é o que preocupa. Em 2020, durante a pandemia, o índice chegou a 65,5%. Desde então, apesar da recuperação econômica e da inflação que diluiu o valor real da dívida, o indicador não recuou de forma consistente. Isso sugere que o crescimento do PIB nominal não está sendo suficiente para compensar a expansão das despesas públicas.
A causa é estrutural: o gasto corrente do governo cresce acima da receita. Enquanto isso, a Selic permanece em patamar elevado para conter pressões inflacionárias. O resultado é que cada ponto percentual de juros reais adicionais amplifica o custo de rolar a dívida, tornando mais difícil reduzir o endividamento relativo.
O mercado precifica esse risco. O spread do CDS de 5 anos do Brasil oscila acima de 150 pontos-base — um sinal de que investidores internacionais demandam prêmio adicional para emprestar ao país. Não é pânico, mas é vigilância.
Impacto por classe de ativo
Renda fixa: A curva de juros brasileira reflete essa dinâmica. Papéis de prazo mais longo (acima de 5 anos) precificam risco de deterioração fiscal. Se o governo não conseguir aprovar medidas de contenção de despesas, a demanda por títulos longos pode arrefecer, pressionando preços e elevando yields. Títulos indexados à inflação (IPCA+) oferecem proteção, mas exigem alocação maior em prazos curtos para reduzir exposição ao risco fiscal.
Renda variável: O Ibovespa, em 172.021 pontos, reflete um mercado que ainda precifica recuperação econômica, mas com cautela. Empresas com receita em dólar (exportadores, bancos com operações internacionais) ganham com o dólar em 5,19 reais, compensando parte do risco fiscal doméstico. Setores defensivos (utilities, consumo essencial) tendem a se beneficiar em cenários de aversão ao risco fiscal.
Câmbio: O real permanece sob pressão estrutural. A combinação de dívida elevada, juros altos e incerteza fiscal reduz o apetite por ativos brasileiros. O dólar em 5,19 reais reflete esse prêmio de risco.
O que monitorar
1. Próximas decisões do Copom: A trajetória da Selic será crítica. Se o Banco Central iniciar ciclo de cortes de juros nas próximas semanas, o custo da dívida recuará, aliviando a pressão fiscal. Mas isso só será viável se a inflação convergir para a meta — condição que ainda não está garantida.
2. Aprovação de medidas fiscais: O governo precisa demonstrar compromisso com ajuste. Qualquer avanço em reforma tributária, revisão de gastos obrigatórios ou aumento de receitas será interpretado como positivo pelos mercados. A ausência de sinais nessa direção amplificará o prêmio de risco.
3. Dinâmica da dívida nos próximos trimestres: Se o índice ultrapassar 67% do PIB, o sinal será de que a trajetória não está sob controle. Esse seria o gatilho para pressão adicional no câmbio e nos spreads de crédito.