A máquina fiscal brasileira entra em modo turbo pré-eleitoral e o mercado ainda não precifica o custo real dessa festa. Enquanto o Ibovespa fecha em 198.773 pontos e o dólar flutua em R$ 4,98, a Selic já está travada em 14,75% ao ano — e há espaço para subir mais se o gasto público descontrolar.
O padrão é conhecido. Meses antes de eleição, governos ampliam transferências, aceleram obras e flexibilizam o teto de gastos. Desta vez, a hiperatividade fiscal chega em um momento crítico: inflação de serviços ainda acima da meta, expectativas de inflação para 2026 em 3,8% (próximo ao teto de 4,5%) e uma taxa de juros real que já está entre as mais altas do mundo.
O risco não é teórico. A cada ponto percentual de gasto extra não financiado por receita, o Banco Central precisa apertar mais a política monetária para ancorar expectativas. O Copom já sinalizou pausa, mas a dinâmica fiscal pode forçar novos aumentos de Selic em 2025.
O que os dados revelam
A Selic a 14,75% já reflete desconfiança. Comparada com a taxa média de 2023 (13,75%), o patamar atual é 100 pontos-base mais alto — exatamente o tamanho do ciclo de aperto que o BC iniciou em agosto. Mas esse aperto foi defensivo, não preventivo.
O dólar a R$ 4,98 sinaliza que o mercado ainda tolera o risco fiscal, porque a taxa de juros real (Selic menos inflação esperada) permanece atrativa para carry trade. Porém, essa tolerância tem limite. A última vez que o Brasil enfrentou pressão fiscal combinada com inflação de serviços persistente foi em 2021-2022, quando a Selic subiu para 13,75% e o dólar disparou para R$ 5,40.
A diferença agora é que o ciclo começou de um patamar mais alto. Não há espaço para surpresas positivas sem que o BC revise suas projeções para cima.
Impacto por classe de ativo
Renda fixa: A curva de juros já precifica uma Selic terminal em torno de 15,5% em 2025. Se a hiperatividade fiscal se confirmar, esse número sobe para 16%. Papéis pré-fixados com vencimento em 2026 e 2027 sofrem pressão imediata. Quem está em pós-fixado (IPCA + juros) ganha, mas o rendimento real cai porque a inflação sobe junto.
Renda variável: O Ibovespa a 198.773 pontos está resiliente porque setores defensivos (utilities, consumo) se beneficiam de juros mais altos em termos de fluxo de caixa. Mas bancos — que representam 30% do índice — sofrem com compressão de spread. A margem de lucro dos bancos cai quando a Selic sobe sem que a inflação suba proporcionalmente.
Câmbio: O dólar a R$ 4,98 é estável porque o carry trade ainda compensa. Mas qualquer sinal de que a Selic vai além de 15,5% força uma reavaliação. O risco é assimétrico: se o fiscal descontrolar, o dólar vai para R$ 5,20 rapidamente.
O que monitorar
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Execução orçamentária em janeiro-fevereiro: Se o gasto discricionário (fora obrigações) crescer acima de 8% ao ano, o BC sinalizará aperto adicional no Copom de fevereiro.
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Expectativa de inflação para 2026: Está em 3,8%. Se subir para 4,0%, o BC não tem escolha — aperta Selic novamente. Acompanhe as pesquisas de expectativa do BC toda semana.
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Resultado primário de dezembro: Publicado em janeiro. Se o governo fechar 2024 com déficit maior que o esperado, o mercado reprifica risco fiscal para 2025 imediatamente.
O mercado ainda está em lua de mel com o fiscal. Quando acordar, o dólar já estará em outro patamar.
