O Banco Central enfrenta um dilema que vai além dos números. Com a Selic em 14,25% ao ano, o risco político emerge como variável que o mercado não desconta plenamente — e isso pode forçar o BC a manter juros elevados por mais tempo do que o fundamento econômico permitiria.
A inflação não sobe apenas por pressões de demanda ou oferta. Ela sobe quando os agentes econômicos perdem confiança na ancoragem das expectativas. E expectativas se desancram rapidamente quando há ruído político sobre gasto público, credibilidade fiscal ou comando da política monetária. O Ibovespa em 176.565 pontos reflete um mercado que precifica essa incerteza — não há euforia, há cautela.
O que os dados revelam
A relação entre risco político e inflação não é teórica. Quando há pressão política sobre o gasto público ou sinais de que o BC perderá autonomia, os agentes ampliam prêmios de risco nas expectativas inflacionárias. Isso força o Banco Central a subir juros não para controlar inflação atual, mas para deter uma inflação futura que o mercado antecipa.
Neste momento, o custo dessa rigidez é evidente: a Selic em dois dígitos comprime margens de crédito, desacelera investimento e pressiona empresas. Setores sensíveis a juros — construção, varejo, consumo — sofrem impacto desproporcional. O próprio consumidor, com taxa média de pessoa física acima de 30% ao ano, reduz gastos.
A volatilidade política, mesmo que não se traduza em resultados concretos imediatos, cria um piso para a taxa de juros que o próprio Banco Central não consegue baixar sem risco de desancoragem inflacionária. É um circulo vicioso: o risco político eleva expectativas de inflação, o BC mantém juros altos para ancorar, e o custo econômico dessa defesa passa a ser suportado por toda a economia.
Impacto por classe de ativo
Renda variável: Setores cíclicos sofrem pressão mais aguda. Bancos beneficiam-se marginalmente pelo spread elevado, mas também enfrentam maior inadimplência. Consumo discreto recua em ambiente de juros altos. Apenas setores defensivos — utilities, saneamento — mantêm demanda resiliente.
Renda fixa: A curva de juros fica presa em patamares elevados. Não há espaço real para queda enquanto a incerteza política persistir. Papéis prefixados com vencimento mais longo embutem esse prêmio de risco político no preço. Quem apostou em queda de juros saiu perdendo.
Câmbio: O real sofre pressão quando o diferencial de juros compensa o risco político. Hoje, a Selic em 14,25% sustenta fluxos de carry trade, ainda que o dólar em 5,1177 sinalize tensão — investidores estrangeiros ganham o spread, mas cobram prêmio pelo risco Brasil.
O que monitorar
Três variáveis determinam se a dinâmica muda: (1) sinais concretos de ajuste fiscal — sem reformas ou corte de despesa, a expectativa de inflação permanece elevada; (2) próximas leituras do IPCA e das expectativas do mercado — se a inflação de serviços continuar acelerada, o BC terá menos margem para flexibilizar; (3) movimentos do Banco Central nas próximas reuniões — qualquer sinal de pressão política sobre decisões monetárias aprofunda o risco.
O mercado agora aguarda clareza política sobre gasto e receita. Sem ela, a Selic permanece refém da dinâmica de expectativas, funcionando menos como instrumento de ajuste e mais como defesa. Esse custo — em crescimento e emprego — é real e crescente.
