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Política Econômica

Selic a 14,75% não contém inflação: o dilema do BC em 2025

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Foto: Raghavendra V. Konkathi / Pexels

A taxa Selic em 14,75% ao ano deveria ser suficiente para conter pressões inflacionárias. Não é. O dólar cotado a R$ 5,0083 e a persistência de choques de oferta revelam que o Banco Central enfrenta um problema estrutural: a taxa de juros nominal, por mais elevada que seja, perdeu capacidade de ancoragem quando o câmbio desalinha e a inflação importada acelera.

Este é o cenário que define o mercado nesta quinta-feira. Não é um dia de "cautela" ou "equilíbrio". É um dia em que os números expõem uma contradição: o Ibovespa em 190.745 pontos resiste, o VIX global em 19,3 (moderado) sugere apetite por risco, mas a estrutura de crédito brasileiro está sendo reprecificada em tempo real.

O que os dados revelam

A relação entre Selic e inflação esperada é o termômetro. Com a taxa de juros real implícita em 14,75% menos a inflação acumulada dos últimos 12 meses, o BC oferece retorno real positivo. Mas isso assume que a inflação não acelerará. O dólar a R$ 5,01 desmente essa premissa.

Cada centavo de desvalorização do real adiciona pressão em bens transacionáveis. Petróleo a US$ 91,06 o barril amplifica isso. O efeito não é imediato no IPCA, mas é certo. O mercado de crédito já precifica: spreads sobre a taxa de juros básica subiram porque os bancos antecipam que a Selic precisará permanecer elevada por mais tempo do que o esperado três meses atrás.

A última vez que enfrentamos dinâmica similar foi em 2021-2022, quando o BC subiu juros agressivamente e ainda assim viu a inflação desancorarse. A diferença agora é que a Selic já está em patamar elevado. Há menos espaço para surpresas para cima.

Impacto por classe de ativo

Renda fixa: A curva de juros futuros está invertida nas pontas longas. Quem compra LTN (Letra do Tesouro Nacional) com vencimento em 2027 aceita taxa menor do que quem compra com vencimento em 2026. Isso sinaliza que o mercado espera corte de juros em 2026, mas não acredita que a inflação será controlada o suficiente para justificar cortes agressivos. Títulos prefixados com vencimento até 12 meses oferecem melhor relação risco-retorno.

Renda variável: Setores defensivos (utilities, consumo essencial) ganham espaço porque a Selic elevada reduz o apetite por risco. Ações ligadas a crédito (bancos) sofrem pressão porque margens se comprimem quando a taxa de juros sobe sem que a inflação ceda. O Ibovespa resiste porque há fluxo externo buscando yield em moedas emergentes, mas é suporte frágil.

Câmbio: O real segue vulnerável. A Selic elevada deveria atrair capital estrangeiro, mas o diferencial de juros Brasil-EUA não compensa o risco de desvalorização contínua. Bitcoin em US$ 77.742 (-0,2%) reflete essa dinâmica: ativos de risco global perdem apelo quando há incerteza sobre inflação global.

O que monitorar

Três variáveis definem os próximos passos:

  1. IPCA de janeiro (sai em 10 de fevereiro): Se vier acima de 0,5% ao mês, o BC sinalizará que a Selic seguirá em patamar elevado. Isso comprime ainda mais o crédito.

  2. Decisão do Copom em 4 de fevereiro: O mercado precifica pausa ou novo corte de 50 pontos-base. Se o BC surpreender mantendo a taxa, o dólar sobe e a renda fixa se reprecia.

  3. Dinâmica do dólar nas próximas 48 horas: Se o real ultrapassar R$ 5,05, entra em zona de stress. Isso força resposta do BC via intervenção ou sinalização mais agressiva sobre juros.

O dilema é claro: cortar juros alivia o crédito, mas alimenta inflação importada. Manter juros elevados controla inflação, mas sufoca a economia. O BC escolheu o segundo caminho. Investidores precisam precificar isso.

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