A meta de resultado primário para 2025 segue longe de ser alcançada. Dados mais recentes mostram que o Tesouro ainda acumula déficit significativo no ano, refletindo uma combinação de despesas estruturais elevadas e receita aquém do esperado. Com a Selic a 14,25% a.a., o custo de refinanciamento da dívida pública pressiona ainda mais a capacidade de o governo cumprir suas metas fiscais, criando um cenário onde a trajetória de ajuste anunciada colide com a realidade operacional.
O que os dados revelam
O calendário fiscal brasileiro não deixa margem para atraso. Para atingir a meta anual de resultado primário—um compromisso crucial para a credibilidade junto a agentes internacionais—seria necessário uma aceleração abrupta nos próximos meses. A realidade mostra que o ritmo atual de execução orçamentária não sustenta essa trajetória. O problema não é isolado: reflete tanto a rigidez das despesas obrigatórias quanto a dificuldade em expandir a base tributária com a economia ainda recuperando ritmo.
O impacto da Selic em patamar elevado agrava a situação. A taxa de juros amplifica os custos com o serviço da dívida, reduzindo espaço orçamentário para investimentos públicos ou programas de transferência. Esse efeito não é meramente contábil—ele limita a flexibilidade fiscal do governo justamente quando pressões políticas por gastos aumentam.
Impacto por classe de ativo
Renda fixa. O Tesouro Direto responde mantendo prêmios mais elevados para prazos longos, compensando investidores pelo risco de deterioração fiscal. Títulos prefixados de maturidade acima de 5 anos carregam prêmio de risco maior do que a média histórica, indicando desconforto com a trajetória. Já os títulos IPCA+ aceleram a demanda por proteção inflacionária, fenômeno típico quando confiança fiscal enfraquece.
Renda variável. Empresas com receitas em dólar ou dependentes de demanda externa saem ganhando em comparação com setores que dependem do consumo doméstico estimulado por gastos públicos. O setor financeiro também ajusta posicionamento, com bancos reduzindo exposição a crédito pessoa física.
Câmbio. O real sofre pressão contínua quando dados fiscais decepcionam. Investidores estrangeiros reprecificam o custo de manter posições em reais quando a trajetória fiscal se torna menos atrativa comparativamente a outros emergentes.
O que monitorar
Três variáveis devem ficar no radar nos próximos meses:
1. Execução orçamentária mensal. Os dados de janeiro e fevereiro serão cruciais. Se o déficit primário continuar se acumulando no mesmo ritmo, a meta de 2025 será oficialmente impossível de atingir antes do segundo trimestre.
2. Decisão do Copom sobre o nível de juros. A próxima reunião definirá se a Selic segue em patamar restritivo. Uma manutenção prolongada em 14,25% a.a. intensifica o problema fiscal.
3. Comunicação oficial do Tesouro. O governo pode anunciar um reajuste nas metas ou implementar medidas de contingenciamento de despesas. Qualquer sinalização dessa natureza afeta imediatamente as curvas de rendimento e o apetite por dívida pública.
O mercado não está em pânico, mas desconforto é visível. Tesouro Direto mantém fluxos positivos entre pessoas físicas, mas com margens menores. A credibilidade fiscal é capital político que, uma vez gasto, tarda a ser recuperado.
